terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Anfitriã da Casa do Tatuapé

Alguns encontros são surpreendentes, inesperados e imprevistos. Foi o caso da longa conversa com Paloma, a jovem educadora que me acolheu na Casa do Tatuapé. 

Eu resido em Campinas, a cerca de cem quilômetros da capital paulista, e me dispus a viajar no último domingo até o bairro do Tatuapé, na zona Leste de São Paulo, para levar meu filho fazer uma prova de concurso público. Como eu teria que esperá-lo durante quatro a cinco horas, pesquisei alguns lugares que poderia visitar na região. Foi assim que fiquei sabendo da Casa do Tatuapé, uma das doze unidades que compõem o Museu da Cidade de São Paulo. As outras são o Beco do Pinto, a Capela do Morumbi, a Casa da Imagem, a Casa do Bandeirante (Butantã), a Casa do Sertanista (Caxingui), a Casa do Grito, a Casa do Sítio da Ressaca, a Casa Modernista, a Chácara Lane, a Cripta Imperial, o Sítio Morrinhos e o Solar da Marquesa de Santos. Dessas todas, eu conhecia de minha infância a Casa do Bandeirante e a Casa do Sertanista.

Estacionei numa rua próxima e decidi almoçar antes de visitar a Casa do Tatuapé. Agradável surpresa descobrir o "Amarê - crepe & café", um estabelecimento de bom gosto, com cadeiras coloridas, estantes com livros, vasos de plantas, objetos de decoração e quadros. Pedi crepe de queijo, rúcula e tomate seco, acompanhada de café gelado com leite e caramelo. A dona, muito atenciosa, retribuiu o elogio que fiz com um belo sorriso. 

A Casa do Tatuapé, cuja construção teve início em 1668, chama a atenção por sua arquitetura simples, mas robusta, que combina com seu papel de resistência frente à urbanização predatória e acelerada do entorno, deixando-a isolada em meio a tantas construções acanhadas individualmente, porém asfixiantes no seu conjunto. Tal como a aldeia gaulesa de Asterix e Obelix, que permaneceu viva não obstante os ataques romanos.

Me senti bem naquele lugar, provavelmente em razão de memória afetiva relacionada a numerosas visitas à Casa do Bandeirante, há mais de meio século. As fachadas de ambas, com amplas janelas e paredes espessas de taipa de pilão são semelhantes. 

Antes mesmo de entrar na casa, fui acolhido por Paloma. Jovem, sorridente, não escondeu sua satisfação por receber mais um visitante e compartilhar com ele (no caso eu) aquilo que estudou sobre a casa. Paloma é graduada em História e me contou que os educadores se revezam nas diferentes unidades do Museu da Cidade, o que lhes permite ter experiências diferentes com públicos diversos e comparar as casa entre si.

Começou a visita me mostrando um mapa que evidenciava a proximidade entre a Casa do Tatuapé e o Rio Tietê, antes da retificação deste. Materiais e insumos de subsistência chegavam pelo rio. Em outras palavras, destacou a relação entre o imóvel e seu entorno quando de sua construção e primeiros séculos de existência. Relação semelhante seria observada em algumas das outras casas. Como se dão as relações entre os imóveis e os rios da maior cidade do país hoje? 

O alpendre conta com dois quartos, um de cada lado, sem comunicação com o interior da casa. Um deles servia para dar pouso a viajantes e poderia ser trancado por fora, garantindo a segurança da família. No dia seguinte o dono da casa o abriria para que o visitante retomasse sua viagem. O outro podia abrigar uma capela. Obrigado, Paloma, pelas curiosas explicações.

As janelas dispunham de quebra-ventos capazes de fazer o ar circular pelos ambientes. O pé direito alto ajudava a dissipar o calor e melhorar o conforto térmico. Como não pensar nos imóveis cada vez mais exíguos que surgem todos os dias nas grandes cidades e que dependem cada vez mais de ar condicionado para se tornarem habitáveis! Tetos baixos, janelas pequenas, vizinhanças muito próximas e concretadas condenam seus moradores a elevadas contas de energia em tempos de mudança climática.

Os batentes das janelas são de canela-preta, nome popular da Ocotea catharinensis. Portanto, são pretos e resistentes a cupins e fungos, conforme constata-se ao se observar suas estruturas intactas passados mais de três séculos e meio desde sua construção. Falando em árvores, é possível admirar um pau-brasil heróico no estreito corredor do que outrora deve ter sido um amplo jardim lateral à casa. Tendo em vista seu crescimento lento e altura aproximada de seis a oito metros, acredito que tem mais anos de vida que a maioria das  outras casas vizinhas. Faz dupla com a Casa do Tatuapé enquanto símbolo de resistência ao avanço relativamente desordenado e acelerado do bairro nos últimos cinquenta anos.

No exercício de seu trabalho como educadora e guia, Paloma não apenas compartilhava seu saber sobre o que o visitante encontrava diante de si, mas, e sobretudo, lhe permitia dar-se ao luxo de refletir, buscar vivências e conhecimentos dentro de si, e devolvê-los na forma de novas perguntas ou comentários. Aos poucos, o visitante ia se encantando não apenas com a Casa do Tatuapé, mas também com sua guia.

Eu me deleitava de tal maneira com aquela conversa que não percebi o tempo passar. De repente, sabiamente, Paloma me sugeriu continuar a visita sozinho, a fim de conhecer a exposição “Memória da resistência: Brenda Lee, a anja das travestis”. Não sei como ela intuiu tão acertadamente que valeria a pena eu me debruçar isoladamente sobre os painéis que relatam a luta pelos direitos civis de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais nos últimos cinquenta anos, principalmente em São Paulo, palco de iniciativas de “higienização social”, caracterizadas por torturas, prisões e mortes; além da questão da AIDS como causa importante de internações e mortes. Pode-se observar, com um misto de tristeza e indignação a manchete da Folha de São Paulo de 1987: “Polícia civil combate a AIDS prendendo travestis”. Ao contrário, foi com admiração que conheci um pouco mais do legado de Brenda Lee, exemplo de pessoa solidária e ativista que acolhia travestis com AIDS, no que futuramente seria a Casa de Apoio com seu nome. Um tema muito atual e que continua suscitando discussões acaloradas e disputas por vezes violentas. Soube, por Paloma, que alguns visitantes e vizinhos reclamam da presença da exposição naquele prédio, referindo-se de forma pejorativa e preconceituosa à população LGBTQIAPN+. Algumas manifestações homofóbicas que ainda poluem as redes sociais e precisam ser analisadas sob perspectivas socioculturais e históricas, a partir de informações recuperadas, organizadas e apresentadas como nesse exposição.Um jornal produzido por homossexuais, e destinado principalmente a eles, chamado de “Lampião da esquina”, circulou entre 1978 e 1981. A manchete da edição de setembro de 1980, chocou ao delatar o que parte da sociedade pensava: “Crioulo não é gente, bicha e mulher tem mais é que morrer”. Em 2025, a violência racial e de gênero continuam envergonhando nosso país. Uma charge mostra a conversa entre o recenseador e uma mulher negra, em 1980: "- Quantos vocês são ao todo? - Bem, éramos onze! Sendo que os quatro menores morreram subnutridos, o casal de gêmeos foi linchado pela sociedade por serem homossexuais, os três rapazes foram suicidados pelo esquadrão e meu marido saiu atrás do Papa cobrando o milagre brasileiro”. Na condição de professor e profissional da saúde, enxerguei ali uma rica oportunidade a ser aproveitada por educadores de escolas e faculdades para apresentar o tema e suscitar discussões com seus alunos, visando formar pessoas e profissionais atentos aos principais problemas sociais da contemporaneidade.

Voltamos a nos encontrar para continuar a prosa sentados num banco de concreto do lado de fora da casa. Ela sentou com as pernas cruzadas, olhando para mim. Portava uma camiseta cinza escura, com imagens das doze unidades do Museu da Cidade, calça jeans e tênis preto com cadarços brancos. Exibia um piercing no nariz e tatuagens nos dois antebraços. Pele clara, cabelos grossos, com uma mecha branca na fronte esquerda e metade da sobrancelha esquerda. O sorriso provinha dos dentes da arcada superior, grandes e muito brancos. Sua juventude combinava com sua postura no banco e seu interesse em compartilhar mais saberes, e escutar outros. Falou também de sua família, amigos e projetos de vida. Não poupou emoção ao trazer a avó de Iguape para a conversa, e imaginei o orgulho recíproco dessa avó em relação à neta.

Graças à Paloma saí da Casa do Tatuapé mais rico do que entrei e com muito mais esperança,