domingo, 19 de julho de 2026

Direito à terra e saúde de assentados

 Foi numa manhã nublada do mês de maio que famílias de moradores do assentamento Milton Santos se reuniram para receber as autoridades encarregadas de lhes entregar o Decreto 12.946, de 27 de abril de 2026, que assegura ser "de interesse social, para fins de desapropriação, o imóvel rural denominado Sítio Boa Vista, localizado nos Municípios de Americana e Cosmópolis, Estado de São Paulo”.

Foram chegando casais, crianças, idosos, quase todos carregando bolos caseiros, batata doce, cuscuz, cachos de banana, melancias, garrafas de café. Pouco a pouco a mesa foi ficando colorida e cheirosa. Sorrisos, apertos de mão, abraços e prosas agradáveis rodeavam as comidas. Gente que luta junto há mais de duas décadas para ter o direito definitivo à terra onde produzem alimentos sem agrotóxicos, não obstante ataques por vezes violentos de pessoas interessadas na especulação imobiliária.

Depois que um dos diretores do MST, o superintendente do INCRA e o deputado federal engajado nessa batalha cumprimentaram um a um todos os presentes, o grupo foi paulatinamente se acomodando nas cadeiras dispostas em fileiras no barracão de alvenaria, ao lado da Escola Popular Melina Melão. O salão foi se colorindo aos poucos. Bonés vermelhos do MST, chapéus de palha, chapéus de feltro, chapéus de couro, gorros. Botas de couro, sapatos, chinelos, tênis. Gente atenta aos discursos e prontas para aplaudir nas pausas dos discursos. As marcas profundas na pele clara da senhora idosa com chapéu de palha narravam de forma peculiar a persistência de descendentes italianos nas roças paulistas. Logo atrás dela sobressaía o exuberante sorriso da mulher de pele parda e cabelos crespos. Pelo menos outras duas gerações de assentados mais novos estavam presentes. Meninos jogavam bola no campo de futebol ali perto e percebiam que algo importante estava acontecendo naquela manhã.

Um menino de onze anos de idade carregava com orgulho uma bolsa circular de onde tirava um pandeiro sempre que alguém lhe pedia para mostrar suas habilidades com o instrumento. Naquele dia não faltou público interessado em conhecer o pequeno pandeirista do Milton Santos.

Uma jovem repórter com lindos cabelos afro entrevistava Eunice, coordenadora do MST no assentamento. Com uma mão segurava o microfone. Seus olhos fixos expressavam admiração e encantamento diante do discurso seguro, firme e verdadeiro daquela mulher que tanto tinha para falar da luta pela terra.

Na condição de assessor da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp, e como responsável por ações na área da saúde, eu sentia que aquela celebração envolvia também alunos e professores que participam de programas de extensão universitária naquele território. Minha presença frequente por ali me fizera perceber que a sensação de incerteza e insegurança provocada pela demora na desaprorpriação legal do espaço causara sofrimento nos seus moradores, ainda que de forma sutil e quase que camuflada pelo trabalho cotidiano. Era capaz de se manifestar disfarçadamente como dor no peito, insônia, angústia, cansaço, irritação. Portanto, aquele Decreto significava muito mais que apenas a regularização fundiária aguardada por cerca de vinte e dois anos. Era também o remédio para o fim de males que afligiam corpo e alma de muitas pessoas.



Carta ao professor Carmino

 Prezado professor Carmino,

Cheguei ao final de “Minha vida na Saúde Pública: os desafios das epidemias”, nesta gostosa manhã de julho. Nessa sua linda trajetória você foi acumulando encontros, emoções, descobertas e ações que marcaram a vida de pessoas tanto individualmente como coletivamente.

Passamos por um momento - talvez longo demais - de grande sofrimento psíquico de estudantes e médicos. A sobrecarga de informações e exigências dos cursos de medicina, à qual se sobrepõe as intrometidas redes sociais que impedem o repouso mental, parece adoecer aqueles que pretendem cuidar do sofrimento humano. Ao ler seu livro, pensei que deveria ser leitura obrigatória para os jovens internos e residentes, pois precisam de modelos que os inspirem ao exercício de uma medicina humanizada, sensível, engajada socialmente e apoiada na ciência.

Em todas as etapas de sua vida você conseguiu conciliar família, pesquisa, ensino e gestão pública. Misture bem e tem-se um caldo de sabedoria, eficiência e humanidade.

Agradeço pela gentileza de nos permitir conhecê-lo melhor. Tomo a liberdade de agradecer-lhe também em nome das pessoas e famílias que tiveram seu sofrimento minimizado graças à sua dedicação à Saúde Pública.

Após a leitura, enquanto passeava com dois vira-latas, me mantive em pensamento com a sua vida na saúde pública e, de repente, me veio uma ideia que ouso lhe comunicar. Antes, preciso contextualizá- la. Há cerca de três anos, estando eu em Roma para congresso de Saúde Pública, fui visitar o Museo di Storia della Medicina da universidade Sapienza. Uma interessante visita. Em um dos andares estavam expostos desenhos de crianças de escolas que visitam o museu. Minha ideia/proposta: fazer o mesmo com nosso Centro de Memória e Arquivo da FCM: receber regularmente estudantes e comunidade em geral. Por exemplo, "Conversa com Dr. Carmino às terças à tarde". Vc tem escrito regularmente sua coluna que recebo por WhatsApp e, portanto, já tem muitos temas prontos para dialogar com a comunidade. Seria uma atividade extensionista muito interessante e mais pessoas teriam a oportunidade de conhecer suas reflexões sobre a saúde e ciência. Gostaria de explicar melhor essa proposta num almoço.

Um forte abraço,

Rubens

Jaguariúna, 4 de julho de 2026.

Encontro de livro

Não foi um encontro qualquer. Foi um encontro de escritora e leitor, mediado por amiga em comum, indispensável após a leitura de "Cartas a uma mulher incrível” (Editora Bora Publicar, 2025), de Ariana Gilberto, uma mulher preta, dona de um belo sorriso, que decidiu compartilhar com seus leitores um pouco de sua história e reflexões relacionadas a negritude e racismo.

Sentimento de forte gratidão à Rose, uma mulher negra, forte, generosa, sempre disposta a ajudar pessoas. A meu ver, muito parecida com sua mãe Marilene. Nos cruzamos pela extensão universitária. Conversas, conversas, conversas. Me dei conta que o domínio teórico, competência prática e assertividade que caraterizam seu trabalho não constituem apenas virtudes pessoais, mas também ferramentas de sobrevivência e resistência dentro de uma estrutura universitária de renomada expertise na análise de fenômenos biomédicos, frequentemente em laboratórios sofisticados, mas não raramente cega ou incompetente para compreender o modus operandi de uma funcionária dessa qualidade. Empatia, respeito, admiração. Um dos temas que nos ligou foi o racismo. Acho que foi por isso que ela lembrou de mim quando recebeu o exemplar de Ariana.

Devorei as cartas em um dia. Confesso que foi o tema do cabelo afro que me fez pedir à Rose para me apresentar a escritora campineira, formada em pedagogia na Unicamp. Talvez porque eu - professor de medicina e outrora médico da atenção básica do SUS - acompanho há muitos anos a história de uma linda menina de dez anos de idade, vítima de racismo covarde por causa de seus cabelos.

Foi assim que nos encontramos para almoçar no início de julho. O atencioso garçom registrou o momento. Apenas depois, já em casa, observando atentamente a fotografia, percebi que além das expressões de felicidade pela reunião, as cores de nossas roupas falavam por nós: afeto, empatia, alegria, espiritualidade, elegância. Não tinha como esconder.

Conversamos sobre o livro - seu nascimento, escrita, lançamento, desdobramentos. Contamos episódios de nossas trajetórias, histórias, causos.

Quem falou que a vida é uma sequência de pequenos momentos, de múltiplos encontros, não estava errado. Hoje vivemos! 


Verdade e mentira

Caro Cremasco,

Boa noite. Desculpa incomodá-lo numa sexta-feira à noite, durante jogo de Copa do Mundo. Troquei a peleja por Guilherme de Almeida e acho que fiz bem. Não sei se saiu gol por lá. Acho que não porque a vizinhança está silenciosa. Mas não foi o poeta campineiro que me levou a escrever-lhe esta mensagem; pelo menos não diretamente. A missiva emergiu da referência que o escritor fez ao encontro entre Oscar Wilde e André Gide, na Argélia, a partir do qual nos faz refletir sobre a vantagem estética da mentira na literatura. Guilherme acha que o encontro ocorreu em 1891, mas parece que ano correto foi 1895. Você, com maior intimidade com o "dândi irlandês" saberá esclarecer melhor que eu. O irlandês e o francês buscavam, aparentemente, fugir da repressão vitoriana e da elite francesa, e desfrutar de experiências homossexuais em outros ambientes. Aproveito para lhe perguntar sobre o lugar que a mentira ocupa na sua obra literária. 

Abraço


P.S.: Marco Aurélio Cremasco é autor de "Wilde, uma peça". (Confraria do tempo, 2024) 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Anfitriã da Casa do Tatuapé


Alguns encontros são surpreendentes, inesperados e imprevistos. Foi o caso da longa conversa com Paloma, a jovem educadora que me acolheu na Casa do Tatuapé. 

Eu resido em Campinas, a cerca de cem quilômetros da capital paulista, e me dispus a viajar no último domingo até o bairro do Tatuapé, na zona Leste de São Paulo, para levar meu filho fazer uma prova de concurso público. Como eu teria que esperá-lo durante quatro a cinco horas, pesquisei alguns lugares que poderia visitar na região. Foi assim que fiquei sabendo da Casa do Tatuapé, uma das doze unidades que compõem o Museu da Cidade de São Paulo. As outras são o Beco do Pinto, a Capela do Morumbi, a Casa da Imagem, a Casa do Bandeirante (Butantã), a Casa do Sertanista (Caxingui), a Casa do Grito, a Casa do Sítio da Ressaca, a Casa Modernista, a Chácara Lane, a Cripta Imperial, o Sítio Morrinhos e o Solar da Marquesa de Santos. Dessas todas, eu conhecia de minha infância a Casa do Bandeirante e a Casa do Sertanista.

Estacionei numa rua próxima e decidi almoçar antes de visitar a Casa do Tatuapé. Agradável surpresa descobrir o "Amarê - crepe & café", um estabelecimento de bom gosto, com cadeiras coloridas, estantes com livros, vasos de plantas, objetos de decoração e quadros. Pedi crepe de queijo, rúcula e tomate seco, acompanhada de café gelado com leite e caramelo. A dona, muito atenciosa, retribuiu o elogio que fiz com um belo sorriso. 

A Casa do Tatuapé, cuja construção teve início em 1668, chama a atenção por sua arquitetura simples, mas robusta, que combina com seu papel de resistência frente à urbanização predatória e acelerada do entorno, deixando-a isolada em meio a tantas construções acanhadas individualmente, porém asfixiantes no seu conjunto. Tal como a aldeia gaulesa de Asterix e Obelix, que permaneceu viva não obstante os ataques romanos.

Me senti bem naquele lugar, provavelmente em razão de memória afetiva relacionada a numerosas visitas à Casa do Bandeirante, há mais de meio século. As fachadas de ambas, com amplas janelas e paredes espessas de taipa de pilão são semelhantes. 

Antes mesmo de entrar na casa, fui acolhido por Paloma. Jovem, sorridente, não escondeu sua satisfação por receber mais um visitante e compartilhar com ele (no caso eu) aquilo que estudou sobre a casa. Paloma é graduada em História e me contou que os educadores se revezam nas diferentes unidades do Museu da Cidade, o que lhes permite ter experiências diferentes com públicos diversos e comparar as casa entre si.

Começou a visita me mostrando um mapa que evidenciava a proximidade entre a Casa do Tatuapé e o Rio Tietê, antes da retificação deste. Materiais e insumos de subsistência chegavam pelo rio. Em outras palavras, destacou a relação entre o imóvel e seu entorno quando de sua construção e primeiros séculos de existência. Relação semelhante seria observada em algumas das outras casas. Como se dão as relações entre os imóveis e os rios da maior cidade do país hoje? 

O alpendre conta com dois quartos, um de cada lado, sem comunicação com o interior da casa. Um deles servia para dar pouso a viajantes e poderia ser trancado por fora, garantindo a segurança da família. No dia seguinte o dono da casa o abriria para que o visitante retomasse sua viagem. O outro podia abrigar uma capela. Obrigado, Paloma, pelas curiosas explicações.

As janelas dispunham de quebra-ventos capazes de fazer o ar circular pelos ambientes. O pé direito alto ajudava a dissipar o calor e melhorar o conforto térmico. Como não pensar nos imóveis cada vez mais exíguos que surgem todos os dias nas grandes cidades e que dependem cada vez mais de ar condicionado para se tornarem habitáveis! Tetos baixos, janelas pequenas, vizinhanças muito próximas e concretadas condenam seus moradores a elevadas contas de energia em tempos de mudança climática.

Os batentes das janelas são de canela-preta, nome popular da Ocotea catharinensis. Portanto, são pretos e resistentes a cupins e fungos, conforme constata-se ao se observar suas estruturas intactas passados mais de três séculos e meio desde sua construção. Falando em árvores, é possível admirar um pau-brasil heróico no estreito corredor do que outrora deve ter sido um amplo jardim lateral à casa. Tendo em vista seu crescimento lento e altura aproximada de seis a oito metros, acredito que tem mais anos de vida que a maioria das  outras casas vizinhas. Faz dupla com a Casa do Tatuapé enquanto símbolo de resistência ao avanço relativamente desordenado e acelerado do bairro nos últimos cinquenta anos.

No exercício de seu trabalho como educadora e guia, Paloma não apenas compartilhava seu saber sobre o que o visitante encontrava diante de si, mas, e sobretudo, lhe permitia dar-se ao luxo de refletir, buscar vivências e conhecimentos dentro de si, e devolvê-los na forma de novas perguntas ou comentários. Aos poucos, o visitante ia se encantando não apenas com a Casa do Tatuapé, mas também com sua guia.

Eu me deleitava de tal maneira com aquela conversa que não percebi o tempo passar. De repente, sabiamente, Paloma me sugeriu continuar a visita sozinho, a fim de conhecer a exposição “Memória da resistência: Brenda Lee, a anja das travestis”. Não sei como ela intuiu tão acertadamente que valeria a pena eu me debruçar isoladamente sobre os painéis que relatam a luta pelos direitos civis de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais nos últimos cinquenta anos, principalmente em São Paulo, palco de iniciativas de “higienização social”, caracterizadas por torturas, prisões e mortes; além da questão da AIDS como causa importante de internações e mortes. Pode-se observar, com um misto de tristeza e indignação a manchete da Folha de São Paulo de 1987: “Polícia civil combate a AIDS prendendo travestis”. Ao contrário, foi com admiração que conheci um pouco mais do legado de Brenda Lee, exemplo de pessoa solidária e ativista que acolhia travestis com AIDS, no que futuramente seria a Casa de Apoio com seu nome. Um tema muito atual e que continua suscitando discussões acaloradas e disputas por vezes violentas. Soube, por Paloma, que alguns visitantes e vizinhos reclamam da presença da exposição naquele prédio, referindo-se de forma pejorativa e preconceituosa à população LGBTQIAPN+. Algumas manifestações homofóbicas que ainda poluem as redes sociais e precisam ser analisadas sob perspectivas socioculturais e históricas, a partir de informações recuperadas, organizadas e apresentadas como nesse exposição.Um jornal produzido por homossexuais, e destinado principalmente a eles, chamado de “Lampião da esquina”, circulou entre 1978 e 1981. A manchete da edição de setembro de 1980, chocou ao delatar o que parte da sociedade pensava: “Crioulo não é gente, bicha e mulher tem mais é que morrer”. Em 2025, a violência racial e de gênero continuam envergonhando nosso país. Uma charge mostra a conversa entre o recenseador e uma mulher negra, em 1980: "- Quantos vocês são ao todo? - Bem, éramos onze! Sendo que os quatro menores morreram subnutridos, o casal de gêmeos foi linchado pela sociedade por serem homossexuais, os três rapazes foram suicidados pelo esquadrão e meu marido saiu atrás do Papa cobrando o milagre brasileiro”. Na condição de professor e profissional da saúde, enxerguei ali uma rica oportunidade a ser aproveitada por educadores de escolas e faculdades para apresentar o tema e suscitar discussões com seus alunos, visando formar pessoas e profissionais atentos aos principais problemas sociais da contemporaneidade.

Voltamos a nos encontrar para continuar a prosa sentados num banco de concreto do lado de fora da casa. Ela sentou com as pernas cruzadas, olhando para mim. Portava uma camiseta cinza escura, com imagens das doze unidades do Museu da Cidade, calça jeans e tênis preto com cadarços brancos. Exibia um piercing no nariz e tatuagens nos dois antebraços. Pele clara, cabelos grossos, com uma mecha branca na fronte esquerda e metade da sobrancelha esquerda. O sorriso provinha dos dentes da arcada superior, grandes e muito brancos. Sua juventude combinava com sua postura no banco e seu interesse em compartilhar mais saberes, e escutar outros. Falou também de sua família, amigos e projetos de vida. Não poupou emoção ao trazer a avó de Iguape para a conversa, e imaginei o orgulho recíproco dessa avó em relação à neta.

Graças à Paloma saí da Casa do Tatuapé mais rico do que entrei e com muito mais esperança.

 


domingo, 20 de julho de 2025

Reflexões médicas em Joseph Kessel

 "La Rose de Java" é um romance escrito, em 1937, pelo escritor Joseph Kessel (1898-1979). Seu primeiro parágrafo encadeia a trama futura com o final do romance “Les temps sauvages" (1975):

"Ayant traversé la mer intérieure du Japon, Le Kita-Maru, qui venait de Vladivostok, jeta l’ancre dans le port de Kobé.” (Kessel, 1979, p. 9)

As duas obras são quase autobiográficas, uma vez que Joseph Kessel, filho de judeus russos, nascido na Argentina - durante estadia de seu pai médico numa colônia agrícola judia naquele país -, alistou-se na aviação francesa ao completar dezoito anos de idade, e, voluntariamente, seguiu com o corpo expedicionário francês para uma missão na Sibéria ao final da Primeira Grande Guerra. Em “Les temps sauvages”, Kessel narra, em primeira pessoa, sua passagem por Vladivostok. 

Nesses dois romances, o personagem principal se apaixona por mulheres locais - Lena e Florence. Em ambas as tramas, uma doença sexualmente transmissível - provavelmente sífilis - obstaculiza a aproximação íntima. No caso de Lena, foi suficiente para que o protagonista a abandonasse, poucos dias antes de embarcar para Kobe:

- Qu’à cela me tienne, mon chéri, mon angelot. Je vais te combler. La maladie, je ne suis pas de qui je l’ai reçue. Un de ces gras, lourds, ignobles vieux marchands à longue barbe et à millions de roubles qui prennent leur vrai plaisir à faire de toi une plaie? Ou encore un petit officier de l’étranger? Quelques-uns ont bien voulu se satisfaire de mes os, à défaut des autres grosses vaches. Qu’est-ce que ça peut me faire, dis? Et de repasser le mal au premier venus, dis?  (Kessel, 1980, p. 171)   

Sua atitude responsável e ética de comunicar ao amante sobre sua doença, indica seus sentimentos verdadeiros em relação a ele.

No caso de Florence, tratava-se de mentira apregoada pelo pai a fim de “proteger" sua filha. 

A sífilis é uma doença que desafiou a medicina por cerca de cinco séculos, entre o final do século XV e meados do século XX, quando finalmente um tratamento comprovadamente eficaz foi colocado à disposição da população. Foi durante a década de 1940 que a penicilina passou a ser usada com sucesso para essa doença. Antes disso, a sífilis era um grande desafio do ponto de vista médico e social. Fazia parte do cotidiano das cidades, e era frequente em regiões portuárias nas quais havia grande circulação de pessoas de diferentes países e prostituição. Atualmente, não obstante o grande avanço no tratamento dessa doença, ainda existem muitos casos, diagnosticados ou não, entre a população, alguns graves como quando a infecção é congênita.

A postura de Lena, contando ao homem que a cortejava sobre sua condição de saúde, é louvável e eticamente exemplar. O texto permite também discutir a relação entre pobreza e sífilis e o lugar destinado às mulheres nas sociedades nitidamente patriarcais, com menos possibilidades de sobrevivência, e necessidade, em alguns casos, de prostituir-se, decisão esta  hipocritamente naturalizada.  

Questões de cunho moral dificultaram o rastreamento, abordagem e cuidado de mulheres prostitutas infectadas. Políticas públicas destinadas ao controle de infecções sexualmente transmissíveis trouxeram algum alento nesse sentido, mas estamos longe de controlar a incidência dessa doença, mormente entre a parcela mais pobre e excluída da sociedade. Trata-se de tema que interessa a gestores da saúde pública, equipes de saúde da família, ginecologistas, pediatras, urologistas, neurologistas, geriatras, dermatologistas, médicos do trabalho, serviços de urgência e assistentes sociais, entre outros. 

Em “La Rose de Java”, Florence, ainda em Kobe, antes de embarcar no navio que dá nome ao livro, desloca-se em riquixá - charrete de duas rodas com um banco para passageiros, puxado por um condutor a pé. Tratava-se de um japonês idoso, portador de insuficiência cardíaca: 

J´apercevais alors un vieux visage fané, ride, sur lequel perlaient déjà de légères gouttes de sueur, et don’t les yeux cernés de poches étaient ceux d´un cardiaque.

[…]

Pendant un kilomètre, le vieil homme soutint facilement ce train. L´habitude, l´art de ménager son souffle, acquis au cours d'un demi-siècle de labeur, remplaçaient les forces que l´âge et le mal lui avaient dérobées.

Mais, passé le pont de la voie ferrée qui coupait la nouvelle ville de l´ancienne, cette maîtrise ne suffit plus.

O velho condutor japonês foi capaz de percorrer o primeiro quilometro graças à habilidade e experiência de meio século de trabalho como “kourouma”. Contudo, viu-se obrigado a parar diante de subida “pesada”, para tomar fôlego e avaliar se poderia continuar. Estava exausto e seu coração dava sinais de estar no limite de sua capacidade. 

Pendant un kilomètre, le vieil homme soutint facilement ce train. L'habitude, l´art de ménager son souffle, acquis au cours d´un demi-siècle de labeur, remplaçaient les forces que l´âge et le mal lui avaient dérobées.

Mais, passé le pont de la voie ferrée qui coupait la nouvelle ville de l´ancienne, cette maîtrise ne suffit plus.

La côte, qui, de là, menait au quartier des consulats était si dure que, instinctivement, je mis pied à terre.

A passageira mostrou-se inconformada com a interrupção da viagem e exigiu, rispidamente, que aquele amarelo, reduzido a animal de carga - "pauvre bête de somme" -, recomeçasse imediatamente e puxar a riquixá. Bem que ele tentou, mas percorreu, com grande esforço, apenas a primeira metade da subida. 

Le vieux Japonais soupira profondément, rapprocha les épaules, bomba les reins, attaqua la montée. Je le suivis, mon kourouma près de moi. Chaque pas coûtait au vieil homme une peine de ses mains crispées. Tout son corps était happé en arrière. Je contemplais avec une curiosité malsaine ce combat désespéré. Il dura jusqu´à la mi-côte.

Là, le kourouma à bout de souffle fit halte.

Esta segunda parada deixou Florence ainda mais irritada. Limitava-se a gritar para que ele continuasse. Permaneceu insensível e indiferente ao sofrimento daquele trabalhador japonês, mesmo quando ele lhe dirigiu um olhar de súplica.

- Marche!

Le vieil homme tourna la tête vers elle. Une angoisse indicible labourait son visage ruisselant, l’angoisse de ceux qui sentent une bête funeste attachée à leur coeur exténué.

- Marche! Cria la jeune femme d’une voix stridente.

O esforço final foi demasiado para aquele coração agredido tão violentamente.

Le kourouma se tassa sur lui-même, ainsi qu’un coureur qui prend son élan, puis il voulut d’un seul effort arriver au sommet de la côte. Les premières foulées furent courageuses. Soudain, il vacilla.

La métisse poussa un cri. La voiturette se renversait.

Um medo desesperador tomou conta da jovem mulher, pois a riquixá começava rolar ladeira abaixo. Coube ao velho japonês trocar sua vida pela dela, colocando sua mão entre os aros da roda, bloqueando assim o veículo. Quase que imediatamente, caiu, ele, inerte.  

Cependant, les genoux du kourouma pliaient. Un râle sifflant ravageait sa gorge. Ses doigts lâchaient…lâchaient… La voiturette penchait de plus en plus et, déjà, je la sentais  s’animer de cette force terrible que prennent les choses lorsqu’elles échappent au pouvoir des hommes. L’équilibre suprême allait se rompre dont la vie de la métisse dépendait.

[…]

Le vieux kourouma, brusquement, abandonna les brancards. J’ai encore dans les oreilles la clameur hystérique de la femme.

Mais, en même temps, le vieil homme, dans un mouvement désespéré, dans un sursaut d’agonisant, passa ses bras entre les rayons d’une roue. Puis sa grosse tête s’imprima, inerte, dans la poussière.

La voiturette, bloquée, versa simplement sur le côté.

Essa trágica passagem do romance é de interesse de, entre outras, pessoas interessadas na saúde do trabalhador. Vários sãos os aspectos merecedores de atenção minuciosa.

O trabalhador envolvido no episódio, e demandado por sua profissão a realizar extenuante esforço físico, era um homem idoso e aparentemente portador de insuficiência cardíaca. Portanto, é bem provável que um um médico atento e preparado para atuar no campo da saúde do trabalhador teria afastado aquele "kouroumaia" de sua atividade até que fosse, pelo menos, investigada e tratada sua cardiopatia, podendo inclusive ser contraindicado seu retorno ao trabalho de forma definitiva. Para isso, caberia ao médico estudar e conhecer os diferentes aspectos da profissão em questão, inclusive relacionados aos riscos à saúde. O cuidado do paciente trabalhador deveria ser interdisciplinar, com contribuição de outros especialistas, como cardiologista, por exemplo, e, de preferência dentro de uma rede de atenção com fluxo e comunicação entre seus diferentes pontos de atenção. Outro aspecto diz respeito ao reconhecimento da profissão para que o trabalhador tivesse direito a benefícios como auxílio doença ou aposentadoria por invalidez. Com certeza, não era esse o caso no Japão de 1919. Tratava-se, muito provavelmente, de trabalho informal, sem proteção social do Estado e à mercê da própria sorte. 

Passados mais de cem anos, nos acostumamos a ver, e naturalizar, pessoas puxando carroças ou carrinhos de mão e até de supermercado com objetos recolhidos pela cidade, para serem revendidos. Nem todos esses catadores de recicláveis estão vinculados a cooperativas e amiúde permanecessem na informalidade. Em que medida são conhecidos e acompanhados pelas equipes de saúde da família de forma a terem seus riscos e problemas de saúde avaliados e tratados? Quantos não lutam contra doenças cardíacas, pulmonares, ortopédicas enquanto puxam suas carroças?

Outros aspecto que o trecho em questão nos oferece diz respeito à forma como a cliente passageira se dirigiu ao “kouroumaia”, rebaixando-o à condição de mero animal de carga, sem compadecer-se de sua condição de idoso, extenuado, claramente sem condições de executar aquele trabalho. Uma das razões para tal comportamento, indicada no texto, era o fato de ele ser “amarelo” e pobre. Em outras palavras, preponderou preconceito de raça e classe social na relação entre os dois. Ela se mostrou totalmente indiferente e sem empatia pelo “kouroumaia”. Ele, por sua vez, revelou-se submisso e não foi capaz de agir sem se prejudicar, sendo coagido a continuar o insuportável esforço. É correto dizer que relações desse tipo podem, como no caso apresentado, causar adoecimento de trabalhadores.

Hoje, assim como no enredo de 1919, muitos trabalhadores são vítimas de processos de trabalho e comportamentos desrespeitosos, agressivos, tanto por parte de alguns cientes como de alguns chefes. Não à toa que o principal problema de saúde ocupacional deste século XXI está na esfera psíquica, com possíveis interações de dupla mão com o físico. 

Ainda que tenhamos avançado muito no que se refere a legislações que protegem trabalhadores, fica-se com a sensação que as profissões mudam, os personagens são outros, mas a essência dos problemas permanece a mesma.

 

Referências:

Kessel, Joseph. La Rose de Java. Paris: Gallimard, 1979. p. 23-28.

Kessel, Joseph. Les temps sauvages. Paris: Gallimard, 1980.

sábado, 5 de julho de 2025

Interações dialógicas transformadoras com João de Barro

No seu afã de interagir, conhecer, transformar e ser transformado, um grupo de extensionistas tem se reunido regularmente com João, aquele que construiu sua casa no alto do poste, bem onde está o apoio transversal de onde partem fios de telefonia e televisão a cabo. De sua residência, pode observar, lá em baixo, as pessoas na praça e o movimento das bikes, carros e motocicletas. Deu-se conta que estas últimas, quando pilotadas por jovens, produzem um barulho ensurdecedor, capaz de tirar-lhe o sono e a paciência, o que acontece, mormente ao anoitecer, quando João já se recolhe ao leito. Bem que seu primo do campo lhe prevenira disso, quando prosearam sobre sua mudança para a cidade. João gosta mesmo do amanhecer, quando o silêncio das ruas e a pureza do ar lhe fazem chegar aos ouvidos o som dos pios das outras aves que por ali vivem ou simplesmente anunciam sua passagem, sozinhas ou em grupos. Algumas chegam a esgoelar sua felicidade por mais um dia nascendo. Outras conversam sem cessar enquanto viajam, fazendo parecer que o bater de asas não exige qualquer esforço. Sua companheira de toda a vida fica ao seu lado, na entrada do ninho. Costumam saudar a alvorada, cantando juntos e batendo as asas, cheios de energia e dispostos a prosseguir na construção da casa própria.

João e sua companheira orgulham-se da habilidade desenvolvida. Os numerosos vôos para buscar e carregar os materiais de construção até a obra são um pouco cansativos, mas a satisfação da casa terminada os faz esquecer qualquer sacrifício anterior. O resultado é tão sublime que há tentativas de imitá-los por parte de pizzaiolos, padeiros e até gente da roça.  

Sua esposa colocou quatro lindos ovos há cerca de duas semanas e o casal está ansioso para receber os filhotes nos próximos dias. Será motivo de alegria e animação. Tão logo cresçam e ganhem o mundo, a casa começará a ficar obsoleta e será abandonada. No ano que vem escolherão outro lugar para uma nova construção, provavelmente mais sofisticada. A casa abandonada servirá de lar a outras aves ou será removida por um funcionário da companhia de energia elétrica da cidade e vendida por mais de cem reais.

Seu tio, conhecido como Sr. Hornero, vive na Argentina e se vangloria do status de celebridade que adquiriu por lá. Emprestou seu nome a uma renomada revista de ornitologia e sua imagem encontra-se estampada na nota de 1000 pesos. Não esconde a vaidade quando conta que costuma avistar pessoas o observando com binóculos e fazendo anotações em um livro onde sua fotografia pode ser vista. Como é fácil dar alegria a esses seres estranhos!

Os extensionistas mostraram-se interessados na história de vida de João e discutem o significado da monogamia furnariana, do trabalho colaborativo e sintonizado do casal, do repetido recomeço da construção do lar ano após ano, e do valor atribuído a uma construção simples, feita de barro, esterco e palha. 

Dizem que essas discussões os ajudarão a compreender melhor o mundo e viver com mais harmonia e justiça.