domingo, 19 de julho de 2026

Direito à terra e saúde de assentados

 Foi numa manhã nublada do mês de maio que famílias de moradores do assentamento Milton Santos se reuniram para receber as autoridades encarregadas de lhes entregar o Decreto 12.946, de 27 de abril de 2026, que assegura ser "de interesse social, para fins de desapropriação, o imóvel rural denominado Sítio Boa Vista, localizado nos Municípios de Americana e Cosmópolis, Estado de São Paulo”.

Foram chegando casais, crianças, idosos, quase todos carregando bolos caseiros, batata doce, cuscuz, cachos de banana, melancias, garrafas de café. Pouco a pouco a mesa foi ficando colorida e cheirosa. Sorrisos, apertos de mão, abraços e prosas agradáveis rodeavam as comidas. Gente que luta junto há mais de duas décadas para ter o direito definitivo à terra onde produzem alimentos sem agrotóxicos, não obstante ataques por vezes violentos de pessoas interessadas na especulação imobiliária.

Depois que um dos diretores do MST, o superintendente do INCRA e o deputado federal engajado nessa batalha cumprimentaram um a um todos os presentes, o grupo foi paulatinamente se acomodando nas cadeiras dispostas em fileiras no barracão de alvenaria, ao lado da Escola Popular Melina Melão. O salão foi se colorindo aos poucos. Bonés vermelhos do MST, chapéus de palha, chapéus de feltro, chapéus de couro, gorros. Botas de couro, sapatos, chinelos, tênis. Gente atenta aos discursos e prontas para aplaudir nas pausas dos discursos. As marcas profundas na pele clara da senhora idosa com chapéu de palha narravam de forma peculiar a persistência de descendentes italianos nas roças paulistas. Logo atrás dela sobressaía o exuberante sorriso da mulher de pele parda e cabelos crespos. Pelo menos outras duas gerações de assentados mais novos estavam presentes. Meninos jogavam bola no campo de futebol ali perto e percebiam que algo importante estava acontecendo naquela manhã.

Um menino de onze anos de idade carregava com orgulho uma bolsa circular de onde tirava um pandeiro sempre que alguém lhe pedia para mostrar suas habilidades com o instrumento. Naquele dia não faltou público interessado em conhecer o pequeno pandeirista do Milton Santos.

Uma jovem repórter com lindos cabelos afro entrevistava Eunice, coordenadora do MST no assentamento. Com uma mão segurava o microfone. Seus olhos fixos expressavam admiração e encantamento diante do discurso seguro, firme e verdadeiro daquela mulher que tanto tinha para falar da luta pela terra.

Na condição de assessor da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp, e como responsável por ações na área da saúde, eu sentia que aquela celebração envolvia também alunos e professores que participam de programas de extensão universitária naquele território. Minha presença frequente por ali me fizera perceber que a sensação de incerteza e insegurança provocada pela demora na desaprorpriação legal do espaço causara sofrimento nos seus moradores, ainda que de forma sutil e quase que camuflada pelo trabalho cotidiano. Era capaz de se manifestar disfarçadamente como dor no peito, insônia, angústia, cansaço, irritação. Portanto, aquele Decreto significava muito mais que apenas a regularização fundiária aguardada por cerca de vinte e dois anos. Era também o remédio para o fim de males que afligiam corpo e alma de muitas pessoas.



Carta ao professor Carmino

 Prezado professor Carmino,

Cheguei ao final de “Minha vida na Saúde Pública: os desafios das epidemias”, nesta gostosa manhã de julho. Nessa sua linda trajetória você foi acumulando encontros, emoções, descobertas e ações que marcaram a vida de pessoas tanto individualmente como coletivamente.

Passamos por um momento - talvez longo demais - de grande sofrimento psíquico de estudantes e médicos. A sobrecarga de informações e exigências dos cursos de medicina, à qual se sobrepõe as intrometidas redes sociais que impedem o repouso mental, parece adoecer aqueles que pretendem cuidar do sofrimento humano. Ao ler seu livro, pensei que deveria ser leitura obrigatória para os jovens internos e residentes, pois precisam de modelos que os inspirem ao exercício de uma medicina humanizada, sensível, engajada socialmente e apoiada na ciência.

Em todas as etapas de sua vida você conseguiu conciliar família, pesquisa, ensino e gestão pública. Misture bem e tem-se um caldo de sabedoria, eficiência e humanidade.

Agradeço pela gentileza de nos permitir conhecê-lo melhor. Tomo a liberdade de agradecer-lhe também em nome das pessoas e famílias que tiveram seu sofrimento minimizado graças à sua dedicação à Saúde Pública.

Após a leitura, enquanto passeava com dois vira-latas, me mantive em pensamento com a sua vida na saúde pública e, de repente, me veio uma ideia que ouso lhe comunicar. Antes, preciso contextualizá- la. Há cerca de três anos, estando eu em Roma para congresso de Saúde Pública, fui visitar o Museo di Storia della Medicina da universidade Sapienza. Uma interessante visita. Em um dos andares estavam expostos desenhos de crianças de escolas que visitam o museu. Minha ideia/proposta: fazer o mesmo com nosso Centro de Memória e Arquivo da FCM: receber regularmente estudantes e comunidade em geral. Por exemplo, "Conversa com Dr. Carmino às terças à tarde". Vc tem escrito regularmente sua coluna que recebo por WhatsApp e, portanto, já tem muitos temas prontos para dialogar com a comunidade. Seria uma atividade extensionista muito interessante e mais pessoas teriam a oportunidade de conhecer suas reflexões sobre a saúde e ciência. Gostaria de explicar melhor essa proposta num almoço.

Um forte abraço,

Rubens

Jaguariúna, 4 de julho de 2026.

Encontro de livro

Não foi um encontro qualquer. Foi um encontro de escritora e leitor, mediado por amiga em comum, indispensável após a leitura de "Cartas a uma mulher incrível” (Editora Bora Publicar, 2025), de Ariana Gilberto, uma mulher preta, dona de um belo sorriso, que decidiu compartilhar com seus leitores um pouco de sua história e reflexões relacionadas a negritude e racismo.

Sentimento de forte gratidão à Rose, uma mulher negra, forte, generosa, sempre disposta a ajudar pessoas. A meu ver, muito parecida com sua mãe Marilene. Nos cruzamos pela extensão universitária. Conversas, conversas, conversas. Me dei conta que o domínio teórico, competência prática e assertividade que caraterizam seu trabalho não constituem apenas virtudes pessoais, mas também ferramentas de sobrevivência e resistência dentro de uma estrutura universitária de renomada expertise na análise de fenômenos biomédicos, frequentemente em laboratórios sofisticados, mas não raramente cega ou incompetente para compreender o modus operandi de uma funcionária dessa qualidade. Empatia, respeito, admiração. Um dos temas que nos ligou foi o racismo. Acho que foi por isso que ela lembrou de mim quando recebeu o exemplar de Ariana.

Devorei as cartas em um dia. Confesso que foi o tema do cabelo afro que me fez pedir à Rose para me apresentar a escritora campineira, formada em pedagogia na Unicamp. Talvez porque eu - professor de medicina e outrora médico da atenção básica do SUS - acompanho há muitos anos a história de uma linda menina de dez anos de idade, vítima de racismo covarde por causa de seus cabelos.

Foi assim que nos encontramos para almoçar no início de julho. O atencioso garçom registrou o momento. Apenas depois, já em casa, observando atentamente a fotografia, percebi que além das expressões de felicidade pela reunião, as cores de nossas roupas falavam por nós: afeto, empatia, alegria, espiritualidade, elegância. Não tinha como esconder.

Conversamos sobre o livro - seu nascimento, escrita, lançamento, desdobramentos. Contamos episódios de nossas trajetórias, histórias, causos.

Quem falou que a vida é uma sequência de pequenos momentos, de múltiplos encontros, não estava errado. Hoje vivemos! 


Verdade e mentira

Caro Cremasco,

Boa noite. Desculpa incomodá-lo numa sexta-feira à noite, durante jogo de Copa do Mundo. Troquei a peleja por Guilherme de Almeida e acho que fiz bem. Não sei se saiu gol por lá. Acho que não porque a vizinhança está silenciosa. Mas não foi o poeta campineiro que me levou a escrever-lhe esta mensagem; pelo menos não diretamente. A missiva emergiu da referência que o escritor fez ao encontro entre Oscar Wilde e André Gide, na Argélia, a partir do qual nos faz refletir sobre a vantagem estética da mentira na literatura. Guilherme acha que o encontro ocorreu em 1891, mas parece que ano correto foi 1895. Você, com maior intimidade com o "dândi irlandês" saberá esclarecer melhor que eu. O irlandês e o francês buscavam, aparentemente, fugir da repressão vitoriana e da elite francesa, e desfrutar de experiências homossexuais em outros ambientes. Aproveito para lhe perguntar sobre o lugar que a mentira ocupa na sua obra literária. 

Abraço


P.S.: Marco Aurélio Cremasco é autor de "Wilde, uma peça". (Confraria do tempo, 2024)