Foi numa manhã nublada do mês de maio que famílias de moradores do assentamento Milton Santos se reuniram para receber as autoridades encarregadas de lhes entregar o Decreto 12.946, de 27 de abril de 2026, que assegura ser "de interesse social, para fins de desapropriação, o imóvel rural denominado Sítio Boa Vista, localizado nos Municípios de Americana e Cosmópolis, Estado de São Paulo”.
Foram chegando casais, crianças, idosos, quase todos carregando bolos caseiros, batata doce, cuscuz, cachos de banana, melancias, garrafas de café. Pouco a pouco a mesa foi ficando colorida e cheirosa. Sorrisos, apertos de mão, abraços e prosas agradáveis rodeavam as comidas. Gente que luta junto há mais de duas décadas para ter o direito definitivo à terra onde produzem alimentos sem agrotóxicos, não obstante ataques por vezes violentos de pessoas interessadas na especulação imobiliária.
Depois que um dos diretores do MST, o superintendente do INCRA e o deputado federal engajado nessa batalha cumprimentaram um a um todos os presentes, o grupo foi paulatinamente se acomodando nas cadeiras dispostas em fileiras no barracão de alvenaria, ao lado da Escola Popular Melina Melão. O salão foi se colorindo aos poucos. Bonés vermelhos do MST, chapéus de palha, chapéus de feltro, chapéus de couro, gorros. Botas de couro, sapatos, chinelos, tênis. Gente atenta aos discursos e prontas para aplaudir nas pausas dos discursos. As marcas profundas na pele clara da senhora idosa com chapéu de palha narravam de forma peculiar a persistência de descendentes italianos nas roças paulistas. Logo atrás dela sobressaía o exuberante sorriso da mulher de pele parda e cabelos crespos. Pelo menos outras duas gerações de assentados mais novos estavam presentes. Meninos jogavam bola no campo de futebol ali perto e percebiam que algo importante estava acontecendo naquela manhã.
Um menino de onze anos de idade carregava com orgulho uma bolsa circular de onde tirava um pandeiro sempre que alguém lhe pedia para mostrar suas habilidades com o instrumento. Naquele dia não faltou público interessado em conhecer o pequeno pandeirista do Milton Santos.
Uma jovem repórter com lindos cabelos afro entrevistava Eunice, coordenadora do MST no assentamento. Com uma mão segurava o microfone. Seus olhos fixos expressavam admiração e encantamento diante do discurso seguro, firme e verdadeiro daquela mulher que tanto tinha para falar da luta pela terra.
Na condição de assessor da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp, e como responsável por ações na área da saúde, eu sentia que aquela celebração envolvia também alunos e professores que participam de programas de extensão universitária naquele território. Minha presença frequente por ali me fizera perceber que a sensação de incerteza e insegurança provocada pela demora na desaprorpriação legal do espaço causara sofrimento nos seus moradores, ainda que de forma sutil e quase que camuflada pelo trabalho cotidiano. Era capaz de se manifestar disfarçadamente como dor no peito, insônia, angústia, cansaço, irritação. Portanto, aquele Decreto significava muito mais que apenas a regularização fundiária aguardada por cerca de vinte e dois anos. Era também o remédio para o fim de males que afligiam corpo e alma de muitas pessoas.

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