domingo, 19 de julho de 2026

Verdade e mentira

Caro Cremasco,

Boa noite. Desculpa incomodá-lo numa sexta-feira à noite, durante jogo de Copa do Mundo. Troquei a peleja por Guilherme de Almeida e acho que fiz bem. Não sei se saiu gol por lá. Acho que não porque a vizinhança está silenciosa. Mas não foi o poeta campineiro que me levou a escrever-lhe esta mensagem; pelo menos não diretamente. A missiva emergiu da referência que o escritor fez ao encontro entre Oscar Wilde e André Gide, na Argélia, a partir do qual nos faz refletir sobre a vantagem estética da mentira na literatura. Guilherme acha que o encontro ocorreu em 1891, mas parece que ano correto foi 1895. Você, com maior intimidade com o "dândi irlandês" saberá esclarecer melhor que eu. O irlandês e o francês buscavam, aparentemente, fugir da repressão vitoriana e da elite francesa, e desfrutar de experiências homossexuais em outros ambientes. Aproveito para lhe perguntar sobre o lugar que a mentira ocupa na sua obra literária. 

Abraço


P.S.: Marco Aurélio Cremasco é autor de "Wilde, uma peça". (Confraria do tempo, 2024) 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Anfitriã da Casa do Tatuapé


Alguns encontros são surpreendentes, inesperados e imprevistos. Foi o caso da longa conversa com Paloma, a jovem educadora que me acolheu na Casa do Tatuapé. 

Eu resido em Campinas, a cerca de cem quilômetros da capital paulista, e me dispus a viajar no último domingo até o bairro do Tatuapé, na zona Leste de São Paulo, para levar meu filho fazer uma prova de concurso público. Como eu teria que esperá-lo durante quatro a cinco horas, pesquisei alguns lugares que poderia visitar na região. Foi assim que fiquei sabendo da Casa do Tatuapé, uma das doze unidades que compõem o Museu da Cidade de São Paulo. As outras são o Beco do Pinto, a Capela do Morumbi, a Casa da Imagem, a Casa do Bandeirante (Butantã), a Casa do Sertanista (Caxingui), a Casa do Grito, a Casa do Sítio da Ressaca, a Casa Modernista, a Chácara Lane, a Cripta Imperial, o Sítio Morrinhos e o Solar da Marquesa de Santos. Dessas todas, eu conhecia de minha infância a Casa do Bandeirante e a Casa do Sertanista.

Estacionei numa rua próxima e decidi almoçar antes de visitar a Casa do Tatuapé. Agradável surpresa descobrir o "Amarê - crepe & café", um estabelecimento de bom gosto, com cadeiras coloridas, estantes com livros, vasos de plantas, objetos de decoração e quadros. Pedi crepe de queijo, rúcula e tomate seco, acompanhada de café gelado com leite e caramelo. A dona, muito atenciosa, retribuiu o elogio que fiz com um belo sorriso. 

A Casa do Tatuapé, cuja construção teve início em 1668, chama a atenção por sua arquitetura simples, mas robusta, que combina com seu papel de resistência frente à urbanização predatória e acelerada do entorno, deixando-a isolada em meio a tantas construções acanhadas individualmente, porém asfixiantes no seu conjunto. Tal como a aldeia gaulesa de Asterix e Obelix, que permaneceu viva não obstante os ataques romanos.

Me senti bem naquele lugar, provavelmente em razão de memória afetiva relacionada a numerosas visitas à Casa do Bandeirante, há mais de meio século. As fachadas de ambas, com amplas janelas e paredes espessas de taipa de pilão são semelhantes. 

Antes mesmo de entrar na casa, fui acolhido por Paloma. Jovem, sorridente, não escondeu sua satisfação por receber mais um visitante e compartilhar com ele (no caso eu) aquilo que estudou sobre a casa. Paloma é graduada em História e me contou que os educadores se revezam nas diferentes unidades do Museu da Cidade, o que lhes permite ter experiências diferentes com públicos diversos e comparar as casa entre si.

Começou a visita me mostrando um mapa que evidenciava a proximidade entre a Casa do Tatuapé e o Rio Tietê, antes da retificação deste. Materiais e insumos de subsistência chegavam pelo rio. Em outras palavras, destacou a relação entre o imóvel e seu entorno quando de sua construção e primeiros séculos de existência. Relação semelhante seria observada em algumas das outras casas. Como se dão as relações entre os imóveis e os rios da maior cidade do país hoje? 

O alpendre conta com dois quartos, um de cada lado, sem comunicação com o interior da casa. Um deles servia para dar pouso a viajantes e poderia ser trancado por fora, garantindo a segurança da família. No dia seguinte o dono da casa o abriria para que o visitante retomasse sua viagem. O outro podia abrigar uma capela. Obrigado, Paloma, pelas curiosas explicações.

As janelas dispunham de quebra-ventos capazes de fazer o ar circular pelos ambientes. O pé direito alto ajudava a dissipar o calor e melhorar o conforto térmico. Como não pensar nos imóveis cada vez mais exíguos que surgem todos os dias nas grandes cidades e que dependem cada vez mais de ar condicionado para se tornarem habitáveis! Tetos baixos, janelas pequenas, vizinhanças muito próximas e concretadas condenam seus moradores a elevadas contas de energia em tempos de mudança climática.

Os batentes das janelas são de canela-preta, nome popular da Ocotea catharinensis. Portanto, são pretos e resistentes a cupins e fungos, conforme constata-se ao se observar suas estruturas intactas passados mais de três séculos e meio desde sua construção. Falando em árvores, é possível admirar um pau-brasil heróico no estreito corredor do que outrora deve ter sido um amplo jardim lateral à casa. Tendo em vista seu crescimento lento e altura aproximada de seis a oito metros, acredito que tem mais anos de vida que a maioria das  outras casas vizinhas. Faz dupla com a Casa do Tatuapé enquanto símbolo de resistência ao avanço relativamente desordenado e acelerado do bairro nos últimos cinquenta anos.

No exercício de seu trabalho como educadora e guia, Paloma não apenas compartilhava seu saber sobre o que o visitante encontrava diante de si, mas, e sobretudo, lhe permitia dar-se ao luxo de refletir, buscar vivências e conhecimentos dentro de si, e devolvê-los na forma de novas perguntas ou comentários. Aos poucos, o visitante ia se encantando não apenas com a Casa do Tatuapé, mas também com sua guia.

Eu me deleitava de tal maneira com aquela conversa que não percebi o tempo passar. De repente, sabiamente, Paloma me sugeriu continuar a visita sozinho, a fim de conhecer a exposição “Memória da resistência: Brenda Lee, a anja das travestis”. Não sei como ela intuiu tão acertadamente que valeria a pena eu me debruçar isoladamente sobre os painéis que relatam a luta pelos direitos civis de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais nos últimos cinquenta anos, principalmente em São Paulo, palco de iniciativas de “higienização social”, caracterizadas por torturas, prisões e mortes; além da questão da AIDS como causa importante de internações e mortes. Pode-se observar, com um misto de tristeza e indignação a manchete da Folha de São Paulo de 1987: “Polícia civil combate a AIDS prendendo travestis”. Ao contrário, foi com admiração que conheci um pouco mais do legado de Brenda Lee, exemplo de pessoa solidária e ativista que acolhia travestis com AIDS, no que futuramente seria a Casa de Apoio com seu nome. Um tema muito atual e que continua suscitando discussões acaloradas e disputas por vezes violentas. Soube, por Paloma, que alguns visitantes e vizinhos reclamam da presença da exposição naquele prédio, referindo-se de forma pejorativa e preconceituosa à população LGBTQIAPN+. Algumas manifestações homofóbicas que ainda poluem as redes sociais e precisam ser analisadas sob perspectivas socioculturais e históricas, a partir de informações recuperadas, organizadas e apresentadas como nesse exposição.Um jornal produzido por homossexuais, e destinado principalmente a eles, chamado de “Lampião da esquina”, circulou entre 1978 e 1981. A manchete da edição de setembro de 1980, chocou ao delatar o que parte da sociedade pensava: “Crioulo não é gente, bicha e mulher tem mais é que morrer”. Em 2025, a violência racial e de gênero continuam envergonhando nosso país. Uma charge mostra a conversa entre o recenseador e uma mulher negra, em 1980: "- Quantos vocês são ao todo? - Bem, éramos onze! Sendo que os quatro menores morreram subnutridos, o casal de gêmeos foi linchado pela sociedade por serem homossexuais, os três rapazes foram suicidados pelo esquadrão e meu marido saiu atrás do Papa cobrando o milagre brasileiro”. Na condição de professor e profissional da saúde, enxerguei ali uma rica oportunidade a ser aproveitada por educadores de escolas e faculdades para apresentar o tema e suscitar discussões com seus alunos, visando formar pessoas e profissionais atentos aos principais problemas sociais da contemporaneidade.

Voltamos a nos encontrar para continuar a prosa sentados num banco de concreto do lado de fora da casa. Ela sentou com as pernas cruzadas, olhando para mim. Portava uma camiseta cinza escura, com imagens das doze unidades do Museu da Cidade, calça jeans e tênis preto com cadarços brancos. Exibia um piercing no nariz e tatuagens nos dois antebraços. Pele clara, cabelos grossos, com uma mecha branca na fronte esquerda e metade da sobrancelha esquerda. O sorriso provinha dos dentes da arcada superior, grandes e muito brancos. Sua juventude combinava com sua postura no banco e seu interesse em compartilhar mais saberes, e escutar outros. Falou também de sua família, amigos e projetos de vida. Não poupou emoção ao trazer a avó de Iguape para a conversa, e imaginei o orgulho recíproco dessa avó em relação à neta.

Graças à Paloma saí da Casa do Tatuapé mais rico do que entrei e com muito mais esperança.

 


domingo, 20 de julho de 2025

Reflexões médicas em Joseph Kessel

 "La Rose de Java" é um romance escrito, em 1937, pelo escritor Joseph Kessel (1898-1979). Seu primeiro parágrafo encadeia a trama futura com o final do romance “Les temps sauvages" (1975):

"Ayant traversé la mer intérieure du Japon, Le Kita-Maru, qui venait de Vladivostok, jeta l’ancre dans le port de Kobé.” (Kessel, 1979, p. 9)

As duas obras são quase autobiográficas, uma vez que Joseph Kessel, filho de judeus russos, nascido na Argentina - durante estadia de seu pai médico numa colônia agrícola judia naquele país -, alistou-se na aviação francesa ao completar dezoito anos de idade, e, voluntariamente, seguiu com o corpo expedicionário francês para uma missão na Sibéria ao final da Primeira Grande Guerra. Em “Les temps sauvages”, Kessel narra, em primeira pessoa, sua passagem por Vladivostok. 

Nesses dois romances, o personagem principal se apaixona por mulheres locais - Lena e Florence. Em ambas as tramas, uma doença sexualmente transmissível - provavelmente sífilis - obstaculiza a aproximação íntima. No caso de Lena, foi suficiente para que o protagonista a abandonasse, poucos dias antes de embarcar para Kobe:

- Qu’à cela me tienne, mon chéri, mon angelot. Je vais te combler. La maladie, je ne suis pas de qui je l’ai reçue. Un de ces gras, lourds, ignobles vieux marchands à longue barbe et à millions de roubles qui prennent leur vrai plaisir à faire de toi une plaie? Ou encore un petit officier de l’étranger? Quelques-uns ont bien voulu se satisfaire de mes os, à défaut des autres grosses vaches. Qu’est-ce que ça peut me faire, dis? Et de repasser le mal au premier venus, dis?  (Kessel, 1980, p. 171)   

Sua atitude responsável e ética de comunicar ao amante sobre sua doença, indica seus sentimentos verdadeiros em relação a ele.

No caso de Florence, tratava-se de mentira apregoada pelo pai a fim de “proteger" sua filha. 

A sífilis é uma doença que desafiou a medicina por cerca de cinco séculos, entre o final do século XV e meados do século XX, quando finalmente um tratamento comprovadamente eficaz foi colocado à disposição da população. Foi durante a década de 1940 que a penicilina passou a ser usada com sucesso para essa doença. Antes disso, a sífilis era um grande desafio do ponto de vista médico e social. Fazia parte do cotidiano das cidades, e era frequente em regiões portuárias nas quais havia grande circulação de pessoas de diferentes países e prostituição. Atualmente, não obstante o grande avanço no tratamento dessa doença, ainda existem muitos casos, diagnosticados ou não, entre a população, alguns graves como quando a infecção é congênita.

A postura de Lena, contando ao homem que a cortejava sobre sua condição de saúde, é louvável e eticamente exemplar. O texto permite também discutir a relação entre pobreza e sífilis e o lugar destinado às mulheres nas sociedades nitidamente patriarcais, com menos possibilidades de sobrevivência, e necessidade, em alguns casos, de prostituir-se, decisão esta  hipocritamente naturalizada.  

Questões de cunho moral dificultaram o rastreamento, abordagem e cuidado de mulheres prostitutas infectadas. Políticas públicas destinadas ao controle de infecções sexualmente transmissíveis trouxeram algum alento nesse sentido, mas estamos longe de controlar a incidência dessa doença, mormente entre a parcela mais pobre e excluída da sociedade. Trata-se de tema que interessa a gestores da saúde pública, equipes de saúde da família, ginecologistas, pediatras, urologistas, neurologistas, geriatras, dermatologistas, médicos do trabalho, serviços de urgência e assistentes sociais, entre outros. 

Em “La Rose de Java”, Florence, ainda em Kobe, antes de embarcar no navio que dá nome ao livro, desloca-se em riquixá - charrete de duas rodas com um banco para passageiros, puxado por um condutor a pé. Tratava-se de um japonês idoso, portador de insuficiência cardíaca: 

J´apercevais alors un vieux visage fané, ride, sur lequel perlaient déjà de légères gouttes de sueur, et don’t les yeux cernés de poches étaient ceux d´un cardiaque.

[…]

Pendant un kilomètre, le vieil homme soutint facilement ce train. L´habitude, l´art de ménager son souffle, acquis au cours d'un demi-siècle de labeur, remplaçaient les forces que l´âge et le mal lui avaient dérobées.

Mais, passé le pont de la voie ferrée qui coupait la nouvelle ville de l´ancienne, cette maîtrise ne suffit plus.

O velho condutor japonês foi capaz de percorrer o primeiro quilometro graças à habilidade e experiência de meio século de trabalho como “kourouma”. Contudo, viu-se obrigado a parar diante de subida “pesada”, para tomar fôlego e avaliar se poderia continuar. Estava exausto e seu coração dava sinais de estar no limite de sua capacidade. 

Pendant un kilomètre, le vieil homme soutint facilement ce train. L'habitude, l´art de ménager son souffle, acquis au cours d´un demi-siècle de labeur, remplaçaient les forces que l´âge et le mal lui avaient dérobées.

Mais, passé le pont de la voie ferrée qui coupait la nouvelle ville de l´ancienne, cette maîtrise ne suffit plus.

La côte, qui, de là, menait au quartier des consulats était si dure que, instinctivement, je mis pied à terre.

A passageira mostrou-se inconformada com a interrupção da viagem e exigiu, rispidamente, que aquele amarelo, reduzido a animal de carga - "pauvre bête de somme" -, recomeçasse imediatamente e puxar a riquixá. Bem que ele tentou, mas percorreu, com grande esforço, apenas a primeira metade da subida. 

Le vieux Japonais soupira profondément, rapprocha les épaules, bomba les reins, attaqua la montée. Je le suivis, mon kourouma près de moi. Chaque pas coûtait au vieil homme une peine de ses mains crispées. Tout son corps était happé en arrière. Je contemplais avec une curiosité malsaine ce combat désespéré. Il dura jusqu´à la mi-côte.

Là, le kourouma à bout de souffle fit halte.

Esta segunda parada deixou Florence ainda mais irritada. Limitava-se a gritar para que ele continuasse. Permaneceu insensível e indiferente ao sofrimento daquele trabalhador japonês, mesmo quando ele lhe dirigiu um olhar de súplica.

- Marche!

Le vieil homme tourna la tête vers elle. Une angoisse indicible labourait son visage ruisselant, l’angoisse de ceux qui sentent une bête funeste attachée à leur coeur exténué.

- Marche! Cria la jeune femme d’une voix stridente.

O esforço final foi demasiado para aquele coração agredido tão violentamente.

Le kourouma se tassa sur lui-même, ainsi qu’un coureur qui prend son élan, puis il voulut d’un seul effort arriver au sommet de la côte. Les premières foulées furent courageuses. Soudain, il vacilla.

La métisse poussa un cri. La voiturette se renversait.

Um medo desesperador tomou conta da jovem mulher, pois a riquixá começava rolar ladeira abaixo. Coube ao velho japonês trocar sua vida pela dela, colocando sua mão entre os aros da roda, bloqueando assim o veículo. Quase que imediatamente, caiu, ele, inerte.  

Cependant, les genoux du kourouma pliaient. Un râle sifflant ravageait sa gorge. Ses doigts lâchaient…lâchaient… La voiturette penchait de plus en plus et, déjà, je la sentais  s’animer de cette force terrible que prennent les choses lorsqu’elles échappent au pouvoir des hommes. L’équilibre suprême allait se rompre dont la vie de la métisse dépendait.

[…]

Le vieux kourouma, brusquement, abandonna les brancards. J’ai encore dans les oreilles la clameur hystérique de la femme.

Mais, en même temps, le vieil homme, dans un mouvement désespéré, dans un sursaut d’agonisant, passa ses bras entre les rayons d’une roue. Puis sa grosse tête s’imprima, inerte, dans la poussière.

La voiturette, bloquée, versa simplement sur le côté.

Essa trágica passagem do romance é de interesse de, entre outras, pessoas interessadas na saúde do trabalhador. Vários sãos os aspectos merecedores de atenção minuciosa.

O trabalhador envolvido no episódio, e demandado por sua profissão a realizar extenuante esforço físico, era um homem idoso e aparentemente portador de insuficiência cardíaca. Portanto, é bem provável que um um médico atento e preparado para atuar no campo da saúde do trabalhador teria afastado aquele "kouroumaia" de sua atividade até que fosse, pelo menos, investigada e tratada sua cardiopatia, podendo inclusive ser contraindicado seu retorno ao trabalho de forma definitiva. Para isso, caberia ao médico estudar e conhecer os diferentes aspectos da profissão em questão, inclusive relacionados aos riscos à saúde. O cuidado do paciente trabalhador deveria ser interdisciplinar, com contribuição de outros especialistas, como cardiologista, por exemplo, e, de preferência dentro de uma rede de atenção com fluxo e comunicação entre seus diferentes pontos de atenção. Outro aspecto diz respeito ao reconhecimento da profissão para que o trabalhador tivesse direito a benefícios como auxílio doença ou aposentadoria por invalidez. Com certeza, não era esse o caso no Japão de 1919. Tratava-se, muito provavelmente, de trabalho informal, sem proteção social do Estado e à mercê da própria sorte. 

Passados mais de cem anos, nos acostumamos a ver, e naturalizar, pessoas puxando carroças ou carrinhos de mão e até de supermercado com objetos recolhidos pela cidade, para serem revendidos. Nem todos esses catadores de recicláveis estão vinculados a cooperativas e amiúde permanecessem na informalidade. Em que medida são conhecidos e acompanhados pelas equipes de saúde da família de forma a terem seus riscos e problemas de saúde avaliados e tratados? Quantos não lutam contra doenças cardíacas, pulmonares, ortopédicas enquanto puxam suas carroças?

Outros aspecto que o trecho em questão nos oferece diz respeito à forma como a cliente passageira se dirigiu ao “kouroumaia”, rebaixando-o à condição de mero animal de carga, sem compadecer-se de sua condição de idoso, extenuado, claramente sem condições de executar aquele trabalho. Uma das razões para tal comportamento, indicada no texto, era o fato de ele ser “amarelo” e pobre. Em outras palavras, preponderou preconceito de raça e classe social na relação entre os dois. Ela se mostrou totalmente indiferente e sem empatia pelo “kouroumaia”. Ele, por sua vez, revelou-se submisso e não foi capaz de agir sem se prejudicar, sendo coagido a continuar o insuportável esforço. É correto dizer que relações desse tipo podem, como no caso apresentado, causar adoecimento de trabalhadores.

Hoje, assim como no enredo de 1919, muitos trabalhadores são vítimas de processos de trabalho e comportamentos desrespeitosos, agressivos, tanto por parte de alguns cientes como de alguns chefes. Não à toa que o principal problema de saúde ocupacional deste século XXI está na esfera psíquica, com possíveis interações de dupla mão com o físico. 

Ainda que tenhamos avançado muito no que se refere a legislações que protegem trabalhadores, fica-se com a sensação que as profissões mudam, os personagens são outros, mas a essência dos problemas permanece a mesma.

 

Referências:

Kessel, Joseph. La Rose de Java. Paris: Gallimard, 1979. p. 23-28.

Kessel, Joseph. Les temps sauvages. Paris: Gallimard, 1980.

sábado, 5 de julho de 2025

Interações dialógicas transformadoras com João de Barro

No seu afã de interagir, conhecer, transformar e ser transformado, um grupo de extensionistas tem se reunido regularmente com João, aquele que construiu sua casa no alto do poste, bem onde está o apoio transversal de onde partem fios de telefonia e televisão a cabo. De sua residência, pode observar, lá em baixo, as pessoas na praça e o movimento das bikes, carros e motocicletas. Deu-se conta que estas últimas, quando pilotadas por jovens, produzem um barulho ensurdecedor, capaz de tirar-lhe o sono e a paciência, o que acontece, mormente ao anoitecer, quando João já se recolhe ao leito. Bem que seu primo do campo lhe prevenira disso, quando prosearam sobre sua mudança para a cidade. João gosta mesmo do amanhecer, quando o silêncio das ruas e a pureza do ar lhe fazem chegar aos ouvidos o som dos pios das outras aves que por ali vivem ou simplesmente anunciam sua passagem, sozinhas ou em grupos. Algumas chegam a esgoelar sua felicidade por mais um dia nascendo. Outras conversam sem cessar enquanto viajam, fazendo parecer que o bater de asas não exige qualquer esforço. Sua companheira de toda a vida fica ao seu lado, na entrada do ninho. Costumam saudar a alvorada, cantando juntos e batendo as asas, cheios de energia e dispostos a prosseguir na construção da casa própria.

João e sua companheira orgulham-se da habilidade desenvolvida. Os numerosos vôos para buscar e carregar os materiais de construção até a obra são um pouco cansativos, mas a satisfação da casa terminada os faz esquecer qualquer sacrifício anterior. O resultado é tão sublime que há tentativas de imitá-los por parte de pizzaiolos, padeiros e até gente da roça.  

Sua esposa colocou quatro lindos ovos há cerca de duas semanas e o casal está ansioso para receber os filhotes nos próximos dias. Será motivo de alegria e animação. Tão logo cresçam e ganhem o mundo, a casa começará a ficar obsoleta e será abandonada. No ano que vem escolherão outro lugar para uma nova construção, provavelmente mais sofisticada. A casa abandonada servirá de lar a outras aves ou será removida por um funcionário da companhia de energia elétrica da cidade e vendida por mais de cem reais.

Seu tio, conhecido como Sr. Hornero, vive na Argentina e se vangloria do status de celebridade que adquiriu por lá. Emprestou seu nome a uma renomada revista de ornitologia e sua imagem encontra-se estampada na nota de 1000 pesos. Não esconde a vaidade quando conta que costuma avistar pessoas o observando com binóculos e fazendo anotações em um livro onde sua fotografia pode ser vista. Como é fácil dar alegria a esses seres estranhos!

Os extensionistas mostraram-se interessados na história de vida de João e discutem o significado da monogamia furnariana, do trabalho colaborativo e sintonizado do casal, do repetido recomeço da construção do lar ano após ano, e do valor atribuído a uma construção simples, feita de barro, esterco e palha. 

Dizem que essas discussões os ajudarão a compreender melhor o mundo e viver com mais harmonia e justiça. 

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Fracasso anunciado

     Tem histórias que são sofridas de contar porque as lembranças que evocam podem ser dolorosas. Por isso, hesitam em se acomodar numa folha de papel ou numa tela de computador. Às vezes, ficam em banho-maria, se movendo de um lado para outro dentro da nossa cabeça, evitando a porta de saída, por dias, semanas, meses e até anos. A que surgirá nas linhas abaixo me enrolou por cerca de um mês, correndo o risco de se esvaziar parcialmente das emoções mais agudas que a acompanharam por ocasião de seu último capítulo. Mas, de repente, pediu para sair, pois não mais cabia dentro da cabeça que a acolhera, como a lava que decide escorrer do vulcão que a continha.

Quiçá pudesse ser evitada, reprimida, refreada, pois viria carregada de tristeza, indignação, revolta. Mas precisou brotar, uma vez que seu objeto é a curta e intensa história da vida de uma criança, que não sossegará enquanto o relato permanecer apenas esboçado no plano das ideias.

A conheci na favela onde morava com sua avó, tios e irmão, durante as atividades de extensão universitária que desenvolvemos por cinco anos junto à comunidade daquele assentamento urbano, cujas moradias eram invariavelmente de madeiras finas, justapostas como num mosaico, no mesmo tom monótono e melancólico da terra batida das estreitas ruas que as ladeavam. 

Morena, cabelo grosso, olhos negros, dentes grandes, não passava desapercebida. Nas fotografias aparece quase sempre colada aos alunos, como que implorando, à sua maneira, por atenção e afeto. Líder, dominava as demais crianças com sua postura proativa, participativa e, não raras vezes, violenta. Inteligente e esperta, rapidamente aprendeu os nomes do todos os tios da universidade e os esperava nas datas agendadas.

Me contou que sua mãe estava presa desde os dezesseis anos de idade, mas que tão logo deixasse a prisão viria morar com a família. Não a conhecia ou não tinha lembranças dela. Sua mãe teve seis filhos, dos quais quatro foram entregues para adoção e dois - ela e seu irmão - ficaram com a avó. Ela era a caçula. Já se foram seis anos desde essa conversa e a mãe não apareceu. De repente, a menina parou de mencionar sua progenitora e passou a chamar sua avó de mãe, pois ela precisava de uma.

Sua avó era então uma mulher muito magra, que bebia e fumava todos os dias. Sob efeito da bebida, mormente à noite, acontecia de insultar a neta e perguntar se alguém queria criá-la no seu lugar. Nos momentos de sobriedade, representava o porto seguro onde a fedelha ancorava seus medos e inseguranças. As irmãs de sua mãe eram muito jovens, tinham filhos pequenos e compartilhavam a dependência de substâncias psicoativas com outros jovens da favela.  

Gostava muito da escola, um lugar de encontro de amigos, afetos e, sobretudo, alimentos. Sofreu muito com o fechamento da escola durante a pandemia, conforme o ronco da barriga e da alma sinalizava àqueles de ouvidos mais atentos.

Acompanhamos seu crescimento durante os anos que frequentamos a favela. 

Não era infrequente testemunharmos adultos vizinhos gritando com ela. Eles gritavam entre eles também ou se agrediam quando algo estava em disputa, apesar de que, em outros momentos, era a solidariedade que prevalecia. A elevada densidade de barracos e de pessoas naquele território parece ter sido fator determinante para o alto grau de tensão social na comunidade, além, é claro, da péssima infraestrutura sanitária e a elevada taxa de desemprego entre os moradores.

Em 2020, um incêndio destruiu vários barracos. Ao serem reconstruídos, diferentemente dos demais, ganharam caixas d’água. A menina lamentou que seu barraco fôra poupado e, consequentemente, não teria uma caixa d’água, esperança de um banho de chuveiro, pois a maioria dos moradores contava apenas com canecas. 

A maioria dos lares era chefiado por mulheres. Muitos homens não eram companheiros e não contribuíam com a criação dos filhos. Alguns estava presos, outros  mortos ou distantes.

As mães das crianças, em sua maioria, engravidaram pela primeira vez muito jovens, no início da adolescência, assim como ocorrera com as avós. Temíamos que o ciclo se perpetuasse.

Nossa personagem desenvolveu-se fisicamente muito rápido. Aos nove anos de idade, seu corpo já manifestava os primeiros sinais da puberdade. Fazia brincadeiras e piadas de cunho sexual, aprendidas com outras crianças, que, assim como ela, eram curiosas e muito observadoras, mas também com adultos. Essa sexualização precoce a transformara numa criança em risco de violência sexual, não bastasse as demais formas que, infelizmente, já experimentara. 

A transição entre ser criança e adolescente, e a educação sexual, foram temas de projetos de extensão universitária e de pesquisa, pois atraíram a atenção e preocupação dos alunos, cada vez mais envolvidos com aquelas meninas e aqueles meninos. 

Desde cedo aprendera a pedir dinheiro, bolachas, balas, enfim qualquer coisa que pudesse lhe ajudar a matar a fome ou o medo de senti-la. Em geral, dava-se bem. 

Aos dez anos, foi obrigada a deixar o território de sua infância, juntamente com sua família, em razão da necessidade de urbanização do bairro, que seria agora reservado apenas aos não miseráveis. Todos os barracos vieram abaixo, incluindo o seu. Não restou nenhum. Foi morar nos fundos de uma oficina mecânica e, em seguida, numa outra ocupação. A perdemos de vista e nos restou acompanhá-la de longe, graças a informações fornecidas por outros moradores que permaneceram próximos ao território da favela.

Volta e meia era vista, aos sábados, pedindo lanches ou almoços numa feira de Barão Geraldo, bairro rico de Campinas, em companhia de prima mais velha ou do irmão. Seu lindo sorriso era sedutor e quase sempre obtinha o que buscava. 

Pouco tempo atrás, soubemos que é vítima de exploração sexual e consome drogas, com apenas onze anos de idade. 

Um dedicado aluno de medicina, dentro da sala de aula, por ocasião de seminário sobre sistemas comparados de saúde, contribuiu com o debate dizendo que, segundo o que pesquisara com ajuda de seu tablet, a Bélgica, tema da apresentação de seus colegas, é um país com excelentes faculdades de medicina, de acordo com um ranking internacional de escolas médicas. Ficamos interessados em conhecer os autores do ranking e os critérios utilizados. Muito provavelmente, as instituições recebiam pontuação em função da qualidade de seus hospitais, laboratórios de pesquisa e simulação, de sua biblioteca, da produção científica de seus professores e pesquisadores, citações e impacto na indústria. Critérios apropriados, talvez, para escolas médicas de países ricos, com mínima desigualdade social e ausência de meninas que sofrem violência psíquica, física e sexual, que passam fome, que moram em condições precárias, que têm o acesso à saúde e educação de qualidade dificultado, que sofrem exploração sexual ainda crianças. Ao invés de simplesmente importar do hemisfério Norte qualquer metodologia de avaliação de faculdades de medicina, urge incorporarmos medidas que dêem conta das singularidades de sociedades tão desiguais como a nossa. Importa-nos saber se a instituição fomenta a interação dialógica com outros setores da sociedade, com diferentes comunidades, se incentiva seus estudantes a lutar contra a injustiça social, a compreender e reconhecer a determinação social do processo saúde-adoecimento-cuidado, a desenvolver habilidades e competências relacionais capazes de os preparar para acolher meninas como nossa personagem, a defender um sistema de saúde verdadeiramente universal, inclusivo, equânime, adequadamente financiado, e uma prática em saúde que coloque a pessoa acima de sua doença biológica. 

Nem mesmo a ampliação da atenção primária à saúde (APS), da estratégia de saúde da família (ESF), da medicina de família e comunidade, do Sistema Único da Assistência Social, do trabalho em equipe interdisciplinar, interprofissional e intersetorial, foi suficiente para que a menina fosse acolhida e protegida oportunamente. Desfilou sua miséria e seu sofrimento pela escola, centro de saúde, centro de referência da assistência social, vizinhança. Infelizmente, muitas vezes não foi reconhecida, e, quando o foi, as ações realizadas mostraram-se ineficazes.

O cuidado em saúde próximo ao local onde a pessoa reside, próprio da APS, o emprego do método clínico centrado na pessoa ou da clínica ampliada e compartilhada, as reuniões de equipe de saúde da família, o apoio matricial pelas equipes multidisciplinares, os projetos terapêuticos singulares e as visitas domiciliárias são apresentadas, ainda que nem sempre na sua melhor condição, aos estudantes da área da saúde, e não são estranhos aos profissionais da APS. Contudo, são de pouca ou nenhuma valia se a pessoa em sofrimento não estiver suficientemente vinculada à equipe de saúde, se seu caso não for tratado de forma singular, se não reconhecermos a gravidade de sua condição clínica e social. 

A menina nos convoca a reavaliar nossas estratégias de cuidado e de formação de profissionais, assim como nossas práticas em saúde.

É provável que a ESF, mesmo contando com a intersetorialidade, não dê conta mesmo de tamanha complexidade e desigualdade social, pois, lamentavelmente, a história dessa menina não é única. Os profissionais da APS trabalham muito e, amiúde, sob pressão de grande demanda, em geral de desafiadora complexidade. Como assegurar que conheçam e vinculem todas as pessoas em sofrimento esparsas em seu território de abrangência, principalmente das comunidades mais pobres que, não raramente, sofrem preconceito e discriminação? Mais do que nunca estas dependem da garantia da equidade.

Há pouco tempo, o Ministério da Saúde, convidou pró-reitores de extensão de universidades públicas brasileiras para discutir como as universidades podem ajudar o SUS. Interessante e estratégico o reconhecimento de que a extensão universitária poderia ocupar esse lugar complementar ao trabalho das equipes do SUS, criando vínculo com moradores de comunidades distanciadas das unidades de saúde, detectando e acolhendo crianças como a menina deste relato, interagindo com os profissionais das equipes de saúde.  

Cabe às escolas médicas olhar para seus currículos e abrir espaço para que seus estudantes não se limitem a atividades práticas em hospitais universitários ou unidades básicas de saúde, mas que tenham oportunidade de interagir dialogicamente com pessoas de diferentes comunidades, nos territórios onde residem, sem a preocupação de  que tais encontros sejam apenas momentos de exercício de uma prática em saúde tradicional, mas sim oportunidades de desenvolvimento de outras formas de relacionar-se com pessoas detentoras de saberes, experiências, valores e crenças singulares e relevantes. 

A integração da extensão universitária ao currículo - processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político que promove a interação transformadora entre universidade e outros setores da sociedade - vai muito além da simples presença do estudante, professor ou profissional de saúde na unidade básica de saúde ou no território adscrito à equipe. Mais do que uma porcentagem de horas curriculares longe das salas de aula, laboratórios, ambulatórios e enfermarias, trata-se de uma postura efetivamente dialógica e interessada nos saberes, histórias e desejos do outro, externo à universidade.

O papel social da universidade depende em grande medida, sem sombra de dúvidas, da coragem para colocar a extensão universitária no centro do ensino e da pesquisa, conhecendo e respondendo às reais demandas da sociedade.

Febre amarela: a morte evitável

    Os principais veículos de comunicação noticiaram a morte por febre amarela de um homem de 39 anos de idade na cidade de Campinas, na primeira semana de fevereiro de 2025. Em praticamente todas as matérias, enfatizou-se o fato do homem morar na região rural do município, no distrito de Sousas, assim como a imediata ação de vacinação voltada aos moradores do entorno de sua residência. Essas duas atitudes serviram para educar as pessoas sobre a importância de procurar um centro de saúde para receber a vacina, caso não a tenham recebido nenhuma vez durante a vida, e para tranquilizar uma população residente tanto na área rural como na urbana, traumatizada com a doença que ceifou vidas ou provocou a fuga de cerca de dois terços dos habitantes durante a segunda metade do século XIX, ainda na memória coletiva da cidade.

O fato merece reflexão mais aprofundada, pois seu significado não se limita a simples episódio fortuito, isolado e sem gravidade.

A febre amarela é doença infecciosa potencialmente grave, transmitida por mosquitos e que pode cursar com febre e icterícia, isto é, conjuntivas e pele amareladas, justificando seu nome. Além desses sinais, os doentes podem apresentar cefaleia, fraqueza, dor no corpo, náuseas, vômitos, calafrios, hemorragia e choque, podendo levar à morte. Com exceção da icterícia, as demais manifestações são comuns também em casos de dengue e outras arboviroses, confundindo ou atrasando o diagnóstico da enfermidade, sobretudo em vigência de surto destas outras doenças na cidade. Daí a importância de uma boa história clínica, investigando o local de residência e trabalho do paciente, a presença de outras pessoas doentes na região, e se há notícia de macacos mortos - funcionam como sentinelas.

O mosquito transmissor da febre amarela urbana é o Aedes aegyptii,  o mesmo que veicula o vírus da dengue, chikungunia e zika. Provavelmente, foi introduzido no Brasil pelos navios negreiros, valendo-se da água conservada à bordo, em grandes barris, e transmitindo a doença a escravos e tripulantes. A palavra Aedes provem de aedos, artistas que tocavam lira enquanto recitavam seus poemas, na Grécia Antiga. O dorso do mosquito tem listas negras que lembram uma lira. Por sua vez aegyptii nos faz lembrar de sua origem africana. (Steffen, 2005, p. 52) 

A febre amarela silvestre, adquirida em florestas, tem como vetor insetos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que vivem nas copas de árvores e picam macacos.

Os primeiros casos ocorreram em 1685, trazidos por negros provenientes da Ilha de São Tomé. Voltaria a ocorrer apenas a partir de 1849, principiando na Bahia. (Santos Filho & Novaes, 1996, p. 17)

A primeira epidemia de febre amarela a atingir Campinas, em 1889, encontrou a cidade em declínio por causa do fim da escravatura, após um período de crescimento rápido que a havia transformado no principal centro econômico do sul do país. Acredita-se que uma mulher suíça - Rosa Beck -, de 24 anos de idade, recém-chegada ao Brasil, tenha contraído a doença no porto de desembarque e manifestado os sintomas já em Campinas, onde pretendia trabalhar como professora de francês. Faleceu a dez de fevereiro, no mesmo mês que o trabalhador falecido em 2025. (Santos Filho e Novaes, 1996, p. 39) Curioso que a gripe espanhola foi introduzida no Brasil por passageiros de um navio britânico proveniente da Lisboa, o Covid-19, por passageiros oriundos da Itália e a febre amarela trazida, provavelmente, de Santos a Campinas por uma suíça.

Essa primeira epidemia causou mortes e pânico, a mortalidade oscilou entre 20% e 25%, fazendo com que a população reduzisse em dois terços, os barões do café se retirassem definitivamente e a cidade praticamente parasse. (Corrêa, 1992, p. 147; Santos Filho & Novaes, 1996)

Podendo contar com poucos médicos residentes na cidade, chegaram outros de outras cidades, como Rio de Janeiro. Acudiram também estudantes de medicina do quinto e sexto anos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. (Santos Filho & Novaes, 1996, p. 55-56)

Adolfo Lutz se fez presente, dedicando-se a observar a doença e a forma de contágio. Ele residiu em Limeira, onde havia uma colônia suiço-alemã, entre 1882 e 1886, quando viajou à Hamburgo, Alemanha, para estagiar com o renomado dermatologista Unna, a fim de adquirir mais conhecimentos sobre a lepra. De volta à São Paulo, em 1888 foi indicado por Unna para colaborar com o Estado do Havaí que lutava contra um número grande de doentes com essa doença. Contudo, interrompeu as tratativas para sua viagem e acorreu a Campinas, onde trabalhou o tempo todo protegido por um mosquiteiro. Viajou ao arquipélago do Havaí apenas em novembro de 1889. (Corrêa, 1992, p. 144-146) Essa passagem de Lutz por Campinas, no momento da grande tragédia da cidade, deve ter pesado no momento dos alunos da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp escolherem o nome de seu Centro Acadêmico.  

Outras epidemias se sucederam em Campinas nos anos seguintes: 1890, 1892, 1896 e 1897.

A primeira epidemia se deu num contexto de disputas de teorias explicativas da forma como as pessoas adquiriam as doenças, num processo de deslegitimação dos miasmas como causadores e valorização do papel das bactérias. No que se refere à febre amarela, o médico cubano Carlos Finlay afirmou, em 1881, que a doença era transmitida por um mosquito. Por outro lado, o médico italiano Giuseppe Sanarelli defendia a teoria da existência de um bacilo icteroide, como responsável pela doença. Esta teoria teve grande aceitação na Europa entre 1897 e 1898. Apesar da resistência de grande parte dos clínicos paulistas, sobretudo das cidades do interior, o comportamento de Lutz, sempre protegido por mosquiteiro, demonstra que a teoria da transmissão por mosquito foi a que prevaleceu na cidade durante a epidemia.

Entre 1902 e 1903, Emílio Ribas coordenou pesquisas no Hospital de Isolamento de São Paulo a fim de comprovar a teoria de Finlay, pois recebia muitas críticas de médicos paulistas. Três voluntários brasileiros, um italiano, Emílio Ribas e Lutz se deixaram picar repetidas vezes, por mosquitos infectados. Os três voluntários desenvolveram sintomas da doença. Outros três voluntários, italianos recém-chegados ao Brasil, dormiram em camas com lençóis sujos com sangue e vômitos de doentes, num quarto fechado e quente, sem mosquitos. Nenhum destes adoeceu. (Almeida, 2009) 

Felizmente, a vacinação previne a doença.

Agora que sabemos que a febre amarela é transmitida por mosquito, que carrega o vírus, que a vacina previne a doença, que é potencialmente grave, podendo causar a morte, podemos analisar melhor o que aconteceu com o morador da zona rural do Distrito de Sousas, em Campinas. 

A primeira reflexão é que a doença na sua forma silvestre, transmitida na zona rural, tende a aumentar cada vez que a cidade avança para as matas ao seu redor, provocando desequilíbrio ecológico. Portanto, a forma como a cidade está se expandindo, com novos condomínios em direção às matas, determina cada vez mais a eclosão de novos surtos de doenças, velhas ou novas.

O fato de um morador de área rural, com maior risco de febre amarela, não estar vacinado também deve ser analisado. Uma ação de vigilância pelas equipes de saúde da família poderia detectar pessoas moradoras dos condomínios e chácaras da região não vacinados. Essa ação poderia ser uma atividade de extensão universitária de alunos de enfermagem e medicina, em colaboração com a secretaria de saúde. Assim como os estudantes colaboraram durante a epidemia de 1889, poderiam participar de ações de vigilância, educação em saúde e prevenção passados 136 anos.

Concluindo, podemos afirmar que a declaração de óbito reduz, e muito, a explicação da causa da morte, ao ser preenchida com febre amarela apenas. Na realidade a morte tem vários fatores determinantes, como a expansão da cidade desrespeitando o meio ambiente, e a não vacinação, com suas diferentes explicações. O que sabemos, é que a morte poderia ter sido evitada.   



Referências

Almeida, Marta de. Tempo de laboratórios, mosquitos e sete invisíveis: as experiências sobre a febre amarela em São Paulo. In: Chalhoub et al. (org.) Artes e ofícios de curar no Brasil: capítulos de história social. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009. p. 122-260. 432p. ISBN 85-268-0663-7.


Corrêa, Marcelo Oswaldo Alvares. A saga de Adolpho Lutz no arquipélago do Hawaii. In: Antunes, José Leopoldo Ferreira; Nascimento, Cláudia Barleta do;  Nassi, Lúcia Castilho & Pregnolatto, Neus Pascuet.  Instituto Adolfo Lutz - 100 anos do Laboratório de Saúde Pública. Instituto Adolfo Lutz - Editora Letras & Letras, 1992. p. 143-156. 280p. ISBN 85-85387-29-7.


Santos Filho, Licurgo de Castro & Novaes, José Nogueira. A febre amarela em Campinas 1889-1900. Campinas: Área de Publicações CMU/Unicamp, 1996. 302p. ISBN 85-85562-03-X.


Steffen, Edgard. O anjinho dos pés tortos e outras histórias. Itu: Ottoni Editora, 2005. 188p. ISBN 85-7464-149-9.  

segunda-feira, 3 de março de 2025

Sua Cidade Maravilhosa

 Mais um dia na cidade maravilhosa, onde você


  busca 

          outros

                      saberes, sorrisos, olhares, discursos e experiências,


  busca

          alimentar

                      seus sonhos e esperanças, 


  busca

          compreender

                      porque o calor é mais quente para uns do que para outros,

                      porque o inverno pode ser mais frio para uns do que para outros,

                      porque a fome é mais funda para uns do que para outros,

                      porque a praia e o mar são mais belos para uns do que para outros,

                      porque a cidade não é maravilhosa para todos,


  busca

          descobrir

                      como você se encaixa neste mundo,

                      como você poderá contribuir para que ele seja menos desigual,

                      como você ajudará Valentina a não deixar de sonhar,

                      como você não perderá a beleza de seus olhos.