sábado, 3 de janeiro de 2015

Saúde da Família como Medicina de Estado

        INTRODUÇÃO
A Estratégia de Saúde da Família (ESF), balizada pelos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), tem a missão de ser a estratégia estruturante principal da atenção primária no país. Trata-se de uma aposta do Estado brasileiro para diminuir as desigualdades de acesso e melhorar a qualidade de atenção à saúde. Alguns conceitos e princípios que regem o funcionamento da ESF identificam-se com características da medicina de Estado que se desenvolveu na Alemanha, no começo do século XVIII, e que Foucault descreveu no livro “Microfísica do Poder”.
A medicina de Estado
De acordo com Foucault, a medicina de Estado alemã representa a primeira etapa na formação da medicina social, seguida pela medicina urbana francesa e da medicina da força de trabalho na Inglaterra (FOUCAULT, 1984). Fez parte ou surgiu a partir de uma ciência do Estado que agrupava por um lado, “um conhecimento que tem por objeto o Estado[..]por outro lado[…]o conjunto de procedimentos pelos quais o Estado extraiu e acumulou conhecimentos para melhor assegurar seu funcionamento” (FOUCAULT, 1984). A prática médica resultante dessa ciência do Estado centrou-se na melhoria da saúde da população e se conduziu pelos princípios da “polícia médica”:
1˚) Um sistema muito mais completo de observação da morbidade do que os simples quadros de nascimento e morte. Observação da morbidade pela contabilidade pedida aos hospitais e aos médicos que exercem a medicina em diferentes cidades ou regiões e registro, ao nível do próprio Estado, dos diferentes fenômenos epidêmicos ou endêmicos observados.
2˚) Um fenômeno importante de normalização da prática e do saber médicos. Procura-se deixar às universidades e sobretudo à própria corporação dos médicos o encargo de decidir em que consistirá a formação médica e como serão atribuídos os diplomas. Aparece a idéia de uma normalização do ensino e, sobretudo, de um controle, pelo Estado, dos programas de ensino e da atribuição dos diplomas.[…]
3˚) Uma organização administrativa para controlar a atividade dos médicos.[…]um departamento especializado é encarregado de acumular as informações que os médicos transmitem, ver como é realizado o esquadrinhamento médico da população, verificar que tratamentos são dispensados, como se reage ao aparecimento de uma doença epidêmica, etc., e, finalmente, emitir ordens em função dessas informações centralizadas. Subordinação, portanto, da prática médica a um poder administrativo superior.
4˚) A criação de funcionários médicos nomeados pelo governo com responsabilidade sobre uma região, seu domínio de poder ou de exercício da autoridade de seu saber.[…]uma pirâmide de médicos, desde médicos de distrito que têm a responsabilidade de uma população entre seis e dez mil habitantes, até oficiais médicos, responsáveis por uma região muito maior e uma população entre trinta e cinco e cinquenta mil habitantes. Aparece, neste momento, o médico como administrador de saúde. (FOUCAULT, 1984).
Coube à medicina de Estado alemã aperfeiçoar e desenvolver a força estatal, isto é, “a força do Estado em seus conflitos, econômicos certamente, mas igualmente políticos, com seus vizinhos” (FOUCAULT, 1984).
Scliar (2002) reconhece na polícia médica alemã um “conceito eminentemente autoritário e paternalista, preocupado, sobretudo, com os aspectos legais das questões de saúde”. A polícia médica seria a forma de alcançar a ordem e “implica o poder da intervenção do Estado, que poderia não apenas colher as informações que julgasse necessárias sobre as pessoas, como também adotar medidas relacionadas ao modo de viver e à educação das crianças” (SCLIAR, 2002). 
Para Nunes (2000), “A Polícia Médica aparece como parte do esquema da organização do Estado cujo objetivo supremo era colocar a vida econômica e social a serviço da política do poder do Estado e, para isso, era fundamental um conhecimento completo da vida da população, a fim de controlá-la por meio de uma legislação que cobrisse todos os aspectos da sua vida, incluindo o controle da profissão médica”. 

A Estratégia de Saúde da Família (ESF)
A ESF nasceu com o nome de Programa de Saúde da Família (PSF), no momento em que o país buscava medidas concretas para consolidar uma reforma sanitária iniciada duas décadas e que já avançara ao incorporar seus princípios e diretrizes na Constituição de 1988. A indignação pela desigualdade de acesso da população e pela má qualidade do sistema de saúde foi um fator determinante para o surgimento do PSF.
Tem como objetivo principal “Contribuir para a reordenação do modelo assistencial a partir da atenção básica, em conformidade com os princípios do Sistema Único de Saúde” (BRASIL, 1997).
Andrade et al. definem a ESF como 
“um modelo de atenção primária, operacionalizado mediante estratégias/ações preventivas, promocionais, de recuperação, reabilitação e cuidados paliativos das equipes de saúde da família, comprometidas com a integridade da assistência à saúde, focado na unidade familiar e consistente com o contexto socioeconômico, cultural e epidemiológico da comunidade em que está inserido” (ANDRADE, BARRETO e BEZERRA, 2006).
De acordo com a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), “As equipes de Saúde da Família devem estar devidamente cadastradas no sistema de cadastro nacional vigente” (BRASIL, 2012). A PNAB considera que cabe ao Estado “Planejar, apoiar, monitorar e avaliar a atenção básica” e “Estabelecer mecanismos de controle, regulação e acompanhamento sistemático dos resultados alcançados” (BRASIL, 2012).
A alimentação regular do Sistema de Informação de Atenção Básica (SIAB), constitui requisito obrigatório para recebimento dos incentivos oferecidos pelo Ministério da Saúde (MS) e permite aos gestores municipais, estaduais e federal o acompanhamento contínuo e a avaliação das atividades desenvolvidas. 
Outra ferramenta adotada pelo MS, capaz de monitorar e avaliar processos e resultados, é o Programa Nacional de Melhoria de Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ). Para isso, serve-se de indicadores contratualizados com as equipes de atenção básica. O PMAQ também exige a alimentação mensal do SIAB, do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) e do Módulo de Gestão do Programa Bolsa-Família na Saúde. Outra ação prevista é a avaliação externa das equipes de atenção básica.

DISCUSSÃO
Desde sua criação oficial, em 1994, a ESF vem ganhando importância e ampliando sua cobertura nos diferentes estados e municípios do país, alcançando o status de principal modelo de atenção à saúde no nível primário. Variados desafios - tais como a dificuldade de fixação de médicos em algumas equipes e o subfinanciamento do sistema de saúde como um todo - obstaculizam ou atrasam a implantação mais ampla da estratégia. Efeitos positivos da ESF têm sido observados, notadamente no que diz respeito à queda da taxa de mortalidade infantil, acompanhamento e controle de doenças crônicas, implementação de medidas de prevenção e diagnóstico precoce, identificação de problemas de ordem social no interior das famílias, preparação das equipes de saúde para lidar com os problemas a partir das famílias e da base territorial e a utilização de novas metodologias de trabalho (MARSIGLIA, 2007).   
O modo como se organiza a ESF e algumas funções que desempenha no sistema de saúde brasileiro, assim como diversas atribuições e atividades do profissionais das equipes de saúde da família, têm como origem ou apoiam-se em conceitos que estruturaram a medicina de Estado alemã, no século XVIII. 
Os moradores de determinado território adscrito a determinada equipe de saúde da família devem ser cadastrados e visitados mensalmente por agentes comunitários de saúde, de forma que tal informação esteja disponível tanto para a equipe como para gestores mais centralizados do sistema de saúde. Os profissionais, na sua prática diária, são solicitados a preencher planilhas com o número do cartão nacional de saúde de cada pessoa atendida, o nome ou as iniciais do nome, data de nascimento, tipo de atendimento e código da doença principal. Tais ações assemelham-se muito ao que a “polícia médica” alemã exigia e colocava em prática, isto é, um sistema de observação de morbidade pela contabilidade pedida aos médicos e o esquadrinhamento médico da população.
O exercício do poder médico sobre determinado território e o controle do que viria a ser esse saber médico oficial e único autorizado, também condizem com os princípios da “polícia médica”. Idem a organização piramidal do corpo médico, com responsabilidades ascendentes sobre territórios adscritos, presente tanto na ESF como na medicina de Estado alemã. Atualmente, as equipes responsáveis por determinado território, respondem a equipes/gestores distritais, municipais, estaduais e federal, numa lógica de organização administrativa semelhante a da medicina de Estado, com subordinação da prática médica a um poder administrativo superior.
A normalização do ensino, da prática e do saber médicos, sob controle do Estado, em conformidade ou ditada por corporações médicas, faz-se presente até hoje nos documentos, tratados, consensos e diretrizes que pretendem nortear as ações e atividades dos profissionais, nos currículos das escolas médicas e dos demais profissionais de saúde, nos programas de residência médica e nos requisitos para obtenção de diplomas ou certificados necessários para que possam  exercer suas profissões. Dita normalização conserva princípios da “polícia médica” alemã que deixava às universidades e à corporação médica a incumbência de decidir sobre a formação médica e a outorga de diplomas. No caso específico do médico de família e comunidade, sua formação obedece ao que preconizam a Comissão Nacional de Residência Médica e a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, por sua vez vinculada à Comissão Iberoamericana de Medicina Familiar. São tais corporações que definem o perfil ideal do profissional médico que deveria compor as equipes de saúde da família (BEDRIKOW, 2013).  
Portanto, ainda que focada na melhoria de saúde da população, a ESF igualmente serve ao aperfeiçoamento e desenvolvimento de uma força estatal, implica o poder da intervenção do Estado e faz parte do esquema da organização do Estado cujo objetivo supremo é colocar a vida econômica e social a serviço da política do poder do Estado.

Referências bibliográficas
  1. Foucault M. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 4a ed., 1984.  
  2. Scliar M. Do mágico ao social: trajetória da saúde pública. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2002. 
  3. Nunes ED. A doença como processo social. In: Canesqui AM. (org). Ciências sociais e saúde para o ensino médico. SP: Hucitec/Fapesp, 2000, p. 217-229.
  4. Girade HA. Assim nasceu o programa Saúde da Família no Brasil. In: Memórias da Saúde da Família no Brasil. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2010.
  5. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Coordenação de Saúde da Comunidade. Saúde da Família: uma estratégia para a reorientação do do modelo assistencial. Brasília. Ministério da Saúde, 1997. 
  6. Andrade LO, Barreto ICHC e Bezerra RC. Atenção Primária à Saúde e Estratégia Saúde da Família. In: Campos GWS et al. (org). Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2006, p. 783-836.
  7. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Atenção Básica / Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. - Brasília: Ministério da Saúde, 2012.
  8. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Programa Nacional de Melhoria de Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ): manual instrutivo / Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. - Brasília: Ministério da Saúde, 2012.
  9. Marsiglia RMG. Famílias: questões para o Programa de Saúde da Família (PSF). In: Acosta AR e Vitale MAF (organizadoras). Família : redes, laços e políticas públicas. São Paulo: Cortez editora / IE PUC-SP, 2007.
  10. Bedrikow R. A clínica e as políticas públicas de saúde para a atenção básica no Brasil. [Tese de doutorado]. Campinas (SP): Universidade Estadual de Campinas; 2013.
Campinas, abril de 2014.

Doutorês

O paciente adentrou o consultório acompanhado da esposa que, apesar do batarismo, passou a relatar os males do companheiro. Queixou-se da ergasiofobia do marido, homem imberbe, eurignato que costumava ter nigálios e soniloquência. Também parecia sofrer de brontofobia e, seguramente, de domatofobia.
A ferida na perna, ele queria tratar pela asticoterapia conforme lhe recomendara seu amigo oriental, orizófago, vitimado por polemopatia e apodemialgia ou ainda através da bedeleptiese por insistência do avô, portador de cainofobia.
A mogilalia da esposa não a impediu de interrompê-lo para perguntar minha opinião sobre orinoterapia e a compressão da salvatela.
O exame físico daquele maciletno revelou pálpebras opadas, dor na ilharga esquerda e febre que depois vim a saber nonana. Com o auxílio do glossocátoco detectei faringeurisma. Receitei medicação na forma de tabelas para serem tomadas ante-cibum.
Ao abrir a porta do consultório, com o intuito de solicitar ao nosócomo um nosóforo, avistei na sala de espera a senhora Maria das Dores, portadora de habromania e rule britânia, associação rara e desafiadora pois alternava-se periodicamente com anteneasmo e cruomania, além de cofose, deuteranopia e epíalo.

Referência bibliográfica : Dr. Pedro A. Pinto
Dicionário de Termos Médicos, 4a edição, 1946
Of. Graf. Fábrica de Bonsucesso - Rio de Janeiro



Rubens Bedrikow
São Paulo, 2000.

Origem

Fazer fio ferro
Filho fome fazenda

Hacer hilo hierro
Hijo hambre hacienda

Tolstói, a Saúde da Família e a formação de médicos

    Qual a relação entre o conde Liev Nikoláievitch Tolstói, a Estratégia de Saúde da Família e a formação de jovens médicos? Eis uma questão que só me apareceu por causa de um presente que recebi de uma querida tia paterna, filha de russo e afeita a ofertar obras interessantes e curiosas. Trata-se, neste caso, do livro “Contos da nova cartilha: primeiro livro de leitura”, publicado pela Ateliê Editorial. Até então, ignorava eu o fato do escritor de “Guerra e Paz” e “Anna Karenina” ter sido também um pedagogo ousado. Em sua propriedade, em Iásnaia Poliana, inaugurou, em meados do século XIX, uma escola para crianças filhas de trabalhadores rurais. Ali realizou experiências didáticas inovadoras, uma vez que detectara limitações nas obras escolares mais famosas da época. Disso resultaram as Cartilhas e os Quatro Livros de Leitura. Por ocasião de sua morte, em 1910, “as cartilhas estavam em sua trigésima edição, com tiragem de cem mil exemplares cada uma”1. “Tolstói acreditava que o critério da pedagogia concentra-se na liberdade”2.
Seus alunos não levavam lições para estudar em casa, não eram obrigados a se lembrar das lições do dia anterior, tinham liberdade para escolher o lugar onde se sentar nas salas de aula (bancos, chão, mesas ou parapeito das janelas), bem como o assunto que queriam estudar. Não havia listas de presença, notas, exames, castigos, repreensões ou chamadas orais. Para o mestre, ao conhecer a liberdade, o aluno desenvolveria sua personalidade e seria capaz de improvisações criativas durante toda a sua vida2.
A Nova Cartilha contém fábulas, histórias verdadeiras e contos maravilhosos. Dessa obra, escolhi alguns textos para ler a um grupo de moradores de bairros adscritos ao centro de saúde onde trabalho como médico da Estratégia de Saúde da Família. As leituras tornaram-se rotineiras após a caminhada semanal que fazemos pelas ruas da região. Certa ocasião, li a fábula “O burro e o cavalo” antes mesmo de partirmos, enquanto aguardávamos a chegada de mais gente. A história do cavalo que se recusou a ajudar o burro a carregar a pesada carga, mas que acabou tendo que carregá-la sozinho após a morte deste, produziu reflexões e comentários nos presentes. Seguimos, então, por ruas, ora de asfalto, ora de terra, cruzamos hortas, uma pequena cobra, e paramos diante da empresa que retira um milhão de litros de água diariamente de um poço artesiano ali localizado. Enchemos os recipientes de água e continuamos até a chácara de um casal de idosos, pacientes meus. Nos convidaram a entrar e colher jabuticabas e caquis. Confesso certa apreensão ao observar as pessoas subindo na jabuticabeira. Felizmente, caíram apenas as frutas. Clima de visita, gente alegre, sorridente e promessas de futuros encontros, churrasco combinado. Pouco mais de uma hora e estávamos de volta à Associação de Moradores. Como de costume, o Sr. Antonio garantiu seu lugar ao meu lado a fim de melhor escutar a leitura, já com a audição abalada pelos quase oitenta anos de uso. A menina Duda, neta de Juraci, também queria um lugar ao meu lado, na expectativa de ouvir mais histórias de bichos. Foi assim que li, para uma platéia animada com o passeio, as frutas, os encontros e as conversas, “O leão e o camundongo” e “O cachorro, o galo e a raposa”. Propositadamente, encerrei com “O velho avô e o netinho”3:
O avô foi ficando muito velho. Suas pernas já não andavam, seus olhos não enxergavam, seus ouvidos não ouviam, e dentes ele não tinha. Quando comia, escorria comida da sua boca. O filho e a nora já não o levavam para comer à mesa e lhe davam de comer atrás da piétchka. Certa vez, deram-lhe comida numa tigela. Ele quis puxá-la para perto de si, mas derrubou-a e quebrou-a. A nora ralhou com o velho, dizendo que ele estragava tudo na casa e quebrava as tigelas, e que daí em diante ela lhe daria comida no cocho. O velho apenas deu um suspiro e não disse nada. Numa ocasião, o marido e a mulher estavam sentados, vendo seu filhinho brincar no chão com alguns pedacinhos de madeira e tentando montar alguma coisa. O pai perguntou:
- O que você está fazendo, Micha?
Micha respondeu:
- Estou fazendo um cocho, papai. Quando você e a mamãe estiverem velhos, vou dar comida para vocês nele.
Marido e mulher olharam um para o outro e começaram a chorar. Eles ficaram envergonhados por tratarem tão mal o velho; daí em diante, passaram a sentá-lo à mesa e cuidaram dele. 
Há mais de 140 anos, Tolstói, numa carta à sua prima Aleksandrina Andréievna, escrevera que, “se duas gerações de crianças russas, desde os filhos da realeza até os dos camponeses, aprendessem as primeiras letras em sua Cartilha e dela recebessem suas primeiras impressões poéticas, ele poderia morrer em paz”1. Sequer poderia ele imaginar sua obra sendo usada como ferramenta de promoção de saúde em outro país, muito distante de sua Iásnaia Poliana natal, e que, de alguma forma, vem apostando na atenção primária à saúde. Os contos, fábulas, contos maravilhosos, histórias verdadeiras, descrições, contos folclóricos e relatos de camponeses têm se prestado a provocar discussões e reflexões entre os moradores, que ampliam o olhar sobre o mundo, as relações interpessoais, as famílias e os valores da sociedade moderna. Contribuem para o empoderamento pessoal e coletivo, com ênfase em caminhos éticos para a sociedade. 
Meu vínculo com algumas escolas de medicina - primeiro a da Santa Casa de São Paulo e, atualmente, a da Unicamp - despertaram em mim o interesse por experiências pedagógicas capazes de atrair os alunos, de encantá-los pela profissão que escolhemos. Assim, foi com grande satisfação que encontrei na obra de Tolstói a indicação de uma proposta de ensino baseada na liberdade, na possibilidade de escolha por parte dos alunos. Enxergar no aluno um sujeito capaz de escolhas, de co-construir seu aprendizado a partir do simples prazer de descobrir o mundo, sem necessidade de listas de presença, exames e notas. Não direi que o pedagogo russo estava à frente de seu tempo.  Primeiro, porque o princípio positivista de progresso não explica todas as formas de avanço da humanidade. Segundo, pelo fato de que ainda hoje as escolas insistem em colocar freios nas potenciais improvisações criativas de seus alunos, oferecendo-lhes conteúdos prontos e obrigando-lhes a apreendê-los intactos, o que é testado e controlado por provas e listas de presença.
Tolstói lia para seus netos e alunos carentes na gelada Rússia do século XIX. 
Eu me pego lendo para meus pacientes pouco abastados da periferia campineira neste tórrido Brasil do século XXI.   
 
                 
Referências bibliográficas
1. Bernardini AF. As cartilhas do Conde Liev Nikoláievitch Tolstói (prefácio). In: Tolstói L. Contos da Nova Cartilha: primeiro livro de leitura. Tradução: M. Aparecida B.P. Soares. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005.
2. Rabello BJ. As cartilhas do Conde Liev Nikoláievitch Tolstói (contra-capa). In: Tolstói L. Contos da Nova Cartilha: primeiro livro de leitura. Tradução: M. Aparecida B.P. Soares. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005.
3. Tolstói L. Contos da Nova Cartilha: primeiro livro de leitura. Tradução: M. Aparecida B.P. Soares. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005.

Rubens Bedrikow

Campinas, 12 de abril de 2014.

Bedrikow, Brodowski e Portinari

Gabriel e eu partimos de Campinas, rumo a Brodowski, esperançosos de alcançar o Museu da Casa de Portinari ainda aberto. Seguimos pela rodovia Anhanguera, deixamos reais e centavos em uma meia dúzia de pedágios e apreciamos muitos quilômetros quadrados de plantações de cana de açucar. No entanto, o objetivo principal era visitar a casa onde morou Cândido Portinari. Tal desejo surgiu da descrição de viagem semelhante feita pelo papai, mamãe e Renato. O quadro – reprodução - que eles me ofertaram manteve presente a idéia do passeio que fica na metade do caminho para Ituiutaba, destino final da nossa viagem.  
A cidade que leva o nome do engenheiro polonês Alexandre Brodowski tem aproximadamente vinte mil habitantes e fica a vinte minutos de Ribeirão Preto. Os pais de Cândido, Batista Portinari e Domenica Torquato eram filhos de imigrantes italianos que se radicaram numa fazenda naquela região. Apaixonaram-se e uniram-se muito cedo – ele com dezoito anos e ela com treze. Tiveram doze filhos. Quando o Sr. Batista decidiu deixar a roça, foi morar numa casa muito simples. Trabalhou como empalhador de cadeiras, atividade que os filhos também aprenderam. Mais tarde, seus amigos músicos o ajudaram a construir a casa que serviu de residência à família e que hoje alberga o museu. Cândido Portinari nasceu em 1903 e faleceu em 1962, vítima de envenenamento por chumbo presente nas tintas. Fico a imaginar os pensamentos que rondaram a mente do médico do trabalho Bernardo Bedrikow no dia da visita à casa do artista, vítima de doença ocupacional. Os efeitos nocivos do material de trabalho do artista eram conhecidos há mais de trezentos anos – “As doenças dos trabalhadores”, de Bernardino Ramazzini, foi publicado em 1700. Alguns tubos de tintas e pincéis estão expostos, assim como vários outros objetos de uso pessoal – chapéus, gravatas, óculos, paletós e sapatos. O calçado do pé direito era mais alto que o esquerdo quatro centímetros a fim de minimizar o desconforto da diferença congênita de comprimento dos membros inferiores. A casa está com a mobília da família. Na cozinha, as cadeiras empalhadas pelo Sr. Batista. Nos quartos, camas, armários, roupas e obras do artista. O Gabriel reconheceu em um dos aposentos, a reprodução que o papai me deu. Nas paredes da capela da “nonna”, construída para que ela pudesse continuar rezando não obstante as dificuldades de locomoção que a acompanharam no final da vida, estão pinturas de santos e de outras figuras religiosas, todos com o rosto de parentes - reconheci o pai, a esposa e a irmã. Quando a guia me disse que Cândido Portinari tinha apenas 1 metro e 54 cm de estatura, ponderei, comigo mesmo, que meu pai também não era alto e concluí que tamanho não é documento. Sentado num banco na praça diante do museu, enquanto tentava fotografar o Gabriel andando de patins, sob a ótima luminosidade do final da tarde, pude travar conversa com uma jovem que brincava com o filho de pouco mais de um ano de vida. Amanda e Pedrinho são nascidos em Brodowski. O avô dela conviveu com Cândido Portinari, principalmente durante a infância deste e quando o artista deixava o Rio de Janeiro ou a Europa – geralmente de dezembro a março – para ficar com a mãe. Amanda contou que ela também freqüentou, quando criança, a casa dos Portinari – nessa ocasião, apenas uma das irmãs do artista (Olga) era viva – parece que ainda está. Amanda lembra que a senhora Portinari chorava sempre que as meninas perguntavam do Candinho. Indaguei-lhe por que dizem Brodósqui e não Brodóviski, desprezando o som de vê do dáblio do nome polonês. Ela não sabe, mas sempre falou e ouviu dizer Brodósqui. A dona da sorveteria confirmou. A Mena tinha razão e mesmo assim fui checar porque sou teimoso. 
Imagino que meus pais me deram aquele quadro – reprodução – porque o acharam bonito e porque gostariam que eu pudesse ter visitado com eles a casa do artista. Era uma forma de compartilhar um pouco comigo, e também com meus irmãos, as emoções que devem ter sentido naquela ocasião. Hoje, estive com eles novamente. Será que eles previram algum efeito prolongado e tardio daquele presente?
Qual será o significado deste passeio para meu filho Gabriel? De alguma forma, avô, filho e neto se comunicaram.

Rubens Bedrikow

Uberaba, 31 de outubro de 2009.

Língua de criança

                                       
     Pedalam portando caçapete
Proteção pro tocovelo
Possante mánica de atiro
Sapatos trocados nos pés

Descem a roda rolante que sobe
Pau de seda que escorrega
Pedem papel gênico
Sentados no vaso solitário

Falam de sangue-sunga
Ravem o pó 
Pedem sogra limonada
Com pizza de mozzalera

Rubens Bedrikow

Campinas, 16 de setembro de 2003.

Auxiliares do São José

Distantes do lar noite sim noite não
Temporâneo afastamento dos conchegos familiares
Árdua a labuta daqueles auxiliares
Que no crepúsculo vespertino iniciam o plantão

Durante um ano com eles convivi
No PA São José quase sem dormir
Apartando o sono para o enfermo servir
Com os auxiliares muito aprendi

Testemunha sou da abnegação
Com que cuidam dos doentes
Alimentam os indigentes
E limpam os bebuns que vomitam palavrões

O verdadeiro sossega leão
Fenergan, haldol e amplictil
Diazepan, hidantal e plasil
Para combater a convulsão

Soro de quinhentos ou de mil
Fisiológico ou glicosado
Transparente ou amarelado
E o doente que fugiu

O garrancho é do doutor
O doente de todo mundo
Seja rico ou imundo
No frio ou no calor

Sirene de madrugada
Ambulância do SAMU
Emergência com ambú
Correria organizada 

Adrenalina e atropina preparadas
Cânulas oito e sete e meio
Todos com receio
Que se trate de parada

Era só falta de ar
Com chiado, tosse e dor no peito
O diagnóstico de broncoespasmo está feito
Só falta a inalação preparar

Se aproxima o alvorecer
Ao sono que aumentou
A fome se juntou
Hora dos controles refazer

Alguns vão para casa descansar
Outros para a escola estudar
Outros ainda trabalhar
Mas em 36 horas outra noite a enfrentar

Profissão sacrificada
Lida com a dor
Exercida com amor
Tarefa sagrada



Rubens Bedrikow

Campinas, 2001.