quinta-feira, 18 de abril de 2024

MAIS MENA

 Foram meses de convivência intensa entre Mena e eu. Nem um só dia longe um do outro desde que o corpo dela reivindicou nossa atenção integral em razão de um mal covarde que se manteve escondido enquanto minava, paulatinamente, forças e esperanças. Cerca de dois meses e meio antes de partir me perguntou se eu achava que ela ia morrer. Fui sincero e disse que não, pois, ainda que receoso que fosse câncer o mal que lhe impedia de desfrutar "menamente" das refeições, eu acreditava no diagnóstico em tempo oportuno e no tratamento eficaz. Nossa proximidade atingiu tal grau que descobri que não se pode medir apenas pelos anos vividos juntos - vinte -, mas, e sobretudo, pela intensidade da relação.

O privilégio concedido a mim - acompanhar Mena em momentos tão difíceis da vida dela - me fez admirá-la ainda mais e reconhecer minha ignorância sobre momentos singulares e únicos de uma partida ou passagem. Contudo, sua generosidade era tamanha que não abriu mão de ensinar àqueles que estiveram à sua volta.

À medida que amadureci na minha carreira e vida, dei-me conta que a medicina - incorporação do método científico à arte de ser médico - não responderia adequadamente às necessidades e demandas das pessoas em sofrimento se deixasse a pessoa em segundo plano e a doença no primeiro. Encontrei uma resposta na Clínica Ampliada e Compartilhada.

A inclusão dos adjetivos “ampliada" e "compartilhada" para qualificar a Clínica - encontro entre profissionais/equipes de saúde e pacientes/famílias - é muito mais do que a simples busca pela prática em saúde que não se limite à doença como objeto de interesse da medicina e a inclusão da pessoa singular, com seus valores, crenças, cultura, desejos, saberes e experiências prévias, dentro de determinado contexto.

Ampliar a Clínica, no caso de pacientes portadores de câncer, significa perceber e compreender as mudanças que ocorrem na forma e funcionamento do corpo e aquelas que se dão no cotidiano, nas relações sociais, valores, visões de mundo, significados das ações e vivências, projetos de vida, sentimentos.

 Compartilhar a Clínica significa interagir dialogicamente no sentido de trocar saberes, entendimentos, análises, propostas, responsabilidades. Um diálogo entre ciência e não ciência, o mais horizontal possível.

A ampliação e o compartilhamento da Clínica requerem mudança na prática em saúde no sentido de se liberar das amarras impostas pelo método clínico tradicional - observação clínica (anamnese, exame físico, exames complementares), raciocínio patofisiológico e vinculação de sinais e sintomas a uma doença - e aprender a escutar/ enxergar a pessoa para além de sua condição mórbida.

O que uma paciente acometida pelo câncer ou seus familiares e amigos próximos poderiam nos contar/ensinar? São saberes e experiências que devem ser acessados e abordados pelos profissionais de saúde, fomentando a prática da Clínica Ampliada e Compartilhada.

Não saí igual da convivência amorosa e solidária com Mena e decidi traduzir - mesmo sabendo que “traduttore, traditore” - em palavras, ou melhor, em frases, orações e parágrafos algumas reflexões que insistiram em emergir. Posso resumi-las na afirmação de que câncer não se resume ao crescimento desordenado de células. Talvez façam sentido para mais alguém. Gostaria que fizessem sentido para profissionais de saúde que venham a interagir com pessoas acometidas por câncer e que lhes incentivassem a ampliar seu objeto de interesse ao exercer sua arte.

NOVOS TERRITÓRIOS E NOVOS PERSONAGENS

Casarão do Café, edifício localizado na avenida Andrade Neves e que conserva a fachada original do imóvel projetado por Eduardo Bento Homem de Melo. Naquela esquina se encontram o moderno e o antigo, pessoas em sofrimento e a Ciência Médica. Salas de espera assépticas e silenciosas, ocupadas por seres concentrados nas informações veiculadas por seus aparelhos celulares. Raramente, um livro de bolso transporta alguém para longe dali. Secretárias atrás de balcões, computadores e telefones. Doutores de branco. Mesas bonitas separam esculápios de doentes e familiares. Diplomas pendurados nas paredes, atestando competência e saber. Aparelhos destinados a constatar irrefutavelmente a presença do mal e a determinar suas causas.

Antes mesmo de adentrar o Casarão, ainda na calçada, é possível observar o vai e vem de pessoas, a maioria idosas, em geral acompanhadas, portando grandes envelopes dentro dos quais imagens do interior de seus corpos passeiam pela cidade. Não raras vezes, nossos olhos cruzam rostos que não são estranhos, quiça já percebidos nas salas de espera, com histórias e nomes desconhecidos de nós.

Graças à doença, o Casarão do Café passou de simples bela fachada observada ao se trafegar pela avenida a território vivo de enfermos, seus familiares e profissionais saúde.

Outros imóveis, outras clínicas, outras paisagens urbanas paulatinamente ocupam, em graus diferentes, espaços na vida daqueles que saem de casa em busca de solução científica para seus sofrimentos.

Estar acometido de câncer também significa ampliar territórios e redes sociais. Novas paisagens, novos rostos, novos temas de conversas. Não se trata apenas de carregar consigo um tecido em acelerada e desordenada multiplicação, mas também de uma pessoa que rapidamente amplia seus territórios vividos e suas interações sociais.

QUE CORPO É ESSE?

A imagem refletida pelo espelho após o banho não a agradou. Não era a que fora moldada durante anos de disciplina no pilates, musculação, caminhadas e alongamentos. As ondas luminosas que chegaram à retina dispararam impulsos eletroquímicos capazes de desencadear conversas entre diferentes regiões do cérebro, inclusive aquelas responsáveis pela memória e sentimentos.

Os músculos murcharam, as saliências ósseas despontaram e a barriga inflou, dando um aspecto diferente, inédito e indesejado àquele corpo que não parecia ser o seu, com o que convivera por décadas. Como seria essa convivência daqui pra frente, uma vez que a dona não gostava mais dele ou não o reconhecia?

A nova imagem não veio sozinha. Acompanharam-na a tristeza, a raiva, a incerteza e o medo.

Quem sabe não seria o caso de cobrir o espelho a fim de evitar fantasmas! Foi essa a solução - fechar as abas laterais espelhadas da penteadeira, escondendo também o espelho central. Dessa forma, o antigo móvel de madeira disposto há tanto tempo em frente à cama, agora enceguecido, não mais refletiu imagem alguma.

Infelizmente, ainda que amordaçado, o corpo não se calou. Seja mediante a dor diária, seja pelo funcionamento prejudicado, que incomodava, judiava, maltratava, limitava. Como seguir amando esse companheiro de décadas que, de uma hora para outra, traiu a confiança e a atenção que recebeu ao longo da vida?

De aliado, passou a inimigo, e batalhas se multiplicaram, exigindo o emprego de armas cada vez mais poderosas e até mortais. Como qualquer guerra que se prolonga por muito tempo, os estragos foram profundos e indeléveis.

AI, COMO A VIDA É BOA

Não é incomum pacientes com câncer avançado apresentarem sede intensa. Trata-se de golpe baixo do tumor, que não respeita nenhuma convenção de guerra. O ataque é dirigido a uma das necessidades mais básicas do ser humano, cujo corpo é constituído por setenta por cento de água.

A proibição da ingesta alimentar pela boca e a instalação de uma sonda nasoenteral impediram-na de tomar água. Restou-lhe a possibilidade de bochechar e cuspir. A cada três ou cinco minutos Mena pedia água. Quanto mais gelada melhor. Insistia para que eu pegasse uma garrafinha de água para mim também, pois eu tinha que cuidar do meu rim e evitar o retorno nas pedras.

Era madrugada quando consegui uma garrafinha de água bem gelada. Enchi o copo pela metade e dei a ela. Colocou na boca, deixou a água passear ali, distendendo as bochechas e devolveu o líquido no outro copinho. Imediatamente após ela, “menamente”, disse: “Ai, como a vida é boa”. Essa frase, sincera e inocente, vinha, na verdade, carregada de muita sabedoria.

“Ai, como a vida é boa” deve ser lida como um recado ou conselho: a felicidade está no momento, no agora, no presente e não no futuro. O prazer que aquele bochecho com água gelada lhe proporcionou parecia semelhante àquele experimentado ao comer uma iguaria ou ao entrar numa cachoeira, num rio, ao admirar um por do Sol, ao escutar uma bela música, e assim por diante.

A preocupação com a almejada felicidade futura talvez impeça a pessoa de desfrutar a felicidade de cada momento presente. Um bochecho de água gelada foi, naquele momento, felicidade do presente, concreta, real, e não almejada para o futuro.

AGARRANDO-SE À FÉ

Somente a fé na ciência poderia explicar a disposição e a paciência para enfrentar o incômodo e a chateação dos itinerários percorridos e das rotinas ambulatoriais e hospitalares vividas durante as etapas de investigação diagnóstica e de tratamento de paciente com câncer. Nunca a palavra paciente fez tanto sentido como quando a fé se confundiu com conformismo, resignação e submissão.

Contudo, a fé precisava ser alimentada. A fé na ciência, e em especial na biomedicina, mingua com a demora, com o fracasso das intervenções, com a piora dos sintomas.

A fé espiritual, no divino, em Deus parece ser mais resistente, durável.

Durante praticamente todas as horas de todos os longos dias e arrastadas noites de permanência no hospital ela manteve uma medalha de Nossa Senhora Desatadora dos Nós na sua mão. Segurava-a com fé. Agarrava-a com força. Estava acompanhada.

Com ela - Nossa Senhora - recebeu notícias boas e ruins.

Com ela suportou as intervenções biomédicas necessárias e desnecessárias. 

Com ela recebeu familiares e amigos.

Com ela despediu-se dos familiares e amigos.

Com ela despediu-se deste mundo terreno.


Campinas, abril de 2024.

domingo, 29 de outubro de 2023

A conversa das árvores na Cachoeira Comprida

 - Ei você aí no alto…

- Quem? Eu?

É você mesmo. Qual é seu nome mesmo?

- Na minha certidão de nascimento está escrito Schizolobium parahyba, mas, como ninguém sabe falar, ganhei o apelido de Guapuruvu. Não sei porque nos registram com nomes tão difíceis. Devia ser proibido isso. Sofri até bullying. Primeiro por causa do nome. Era Esquizo pra cá, Esquizo pra lá. "Você já foi ao seu psiquiatra?” Ou ainda “Volta pra Paraíba”. Meu irmãozinho não sabia falar meu nome e dizia algo incompreensível, com o som parecido com guapuruvu. O jeito dele falar pegou e hoje todo mundo me chama pelo apelido. Mais tarde, na adolescência, a causa do bullying passou a ser o fato de eu ser magro e comprido. “Não precisa de escada não pra trocar a lâmpada; chama o Guapuruvu”. Se você está me chamando para fazer gozação comigo, pode ir embora porque não quero conversa com você.

  - Calma. Não é nada disso. Não vou fazer gozação com seu nome, não. É que você é mais alta que eu e queria lhe pedir um favor. Estou percebendo que está super movimentado na casa do Rodolfo e da Regina hoje. Você sabe como sou curiosa, mas não consigo enxergar daqui. Será que você poderia olhar lá e me contar o que está acontecendo?

- Com prazer. Vou olhar e te conto sim. Para isso servem os vizinhos; para colaborar. Além do mais, tudo que acontece com aquele casal nos interessa porque é graças a eles que estamos aqui, fortes e felizes.  

- Verdade. Mas não esqueça da menina Júlia também, a filha deles.

- Impossível esquecer dela. Ainda aparecendo menos por aqui, todas nós temos muito carinho por ela e muitas lembranças, principalmente da infância que passamos aqui na Cachoeira Comprida.

- Então me conta o que você consegue avistar.

- OK. Hoje, tem muita gente jovem na casa. Parecem animados. Comeram pão, bolo, abacate, mamão. Beberam leite de castanha com linhaça, café, chá. Agora estão sentados em roda e cada um está falando um pouco. 

- Tenta ouvir o que estão dizendo.

- Estão falando o nome, o que fazem e que árvore gostariam de ser. Uma mulher com camiseta vermelha falou jaboticaba. É a irmã do Rodolfo. Uma outra disse mangueira. E outra falou abacateiro. Começaram a cantar a música do Gil. Eita turma animada. [Eu começo a chorar]

- Porque você está chorando? Aconteceu alguma coisa que te deixou triste?

- É porque uma jovem com um sorriso muito bonito falou meu nome. Ela queria ser eu. Ela não imagina como sou sensível e o presente que me deu ao falar meu nome positivamente e não para fazer bullying. Se eu pudesse ia dar um abraço nela. 

- Porque você não manda uma folha até ela, de presente?

- Boa ideia. Vou fazer isso. Vou rezar pro vento levar bem pertinho dela. Quem sabe até pousa nela.

- Conta mais. Conta mais.

- Peraí. A Regina pegou aquela foto antiga daqui. De antes da gente nascer. Parece que era muito triste por aqui antigamente. Olhando a foto, fico até emocionada. Se eu pudesse abraçar o Rodolfo, a Regina e a Júlia, não soltaria mais. Ia encharcar eles com minhas lágrimas de reconhecimento. Desculpa. Eu choro com facilidade. Você sabe que sou uma manteiga derretida. Ei, o que está acontecendo? Você também está chorando?

- Sim. De alegria. Não estou enxergando nada, mas só de ouvir você narrar eu já me emocionei. 

- Agora o Rodolfo levantou e começou a explicar como será a atividade do dia do outro lado da estrada. Entendi tudo. Essa turma toda vai ajudar a plantar uma agrofloresta. Em três metros haverá banana, café, goiaba ou cítrico, eucalipto, sementes de urucum, e outras plantas ou sementes, mas não consegui ouvir direito porque passou aquele tucano simpático fazendo barulho. Um jovem já está calçando a bota. A meia tem marca de terra. Ele já deve ter trabalhado em agrofloresta.

- Nossa! Pelo jeito vai ser muito legal mesmo.

- Agora que me dei conta. Até o seu Israel e dona Rute estão lá. Eu gosto tanto deles. Vivo observando seu Israel trabalhar. Ninguém diz que ele já tem setenta e nove anos. E que charme, ele fumando aquele cigarro feito com palha de milho.

- Hoje, vou dormir tranquila depois de ouvir tanta coisa bonita que você falou. Acho que vou eliminar ainda mais oxigênio.

- Eu também, pois nunca imaginei que um dia eu ia ver tanta gente reunida preocupada conosco e com nosso futuro. Rodolfo, Regina e Júlia nos colocaram lado a lado para que, de forma solidária e colaborativa, pudéssemos interagir e crescer mais fortes. Agora, reuniram uma galera de jovens, engajada na mesma direção. Dá até para voltar a ter esperança.  

- Hoje está sendo um dia muito especial. Eu diria até histórico.

- Concordo com você. Felizmente, o Rafael está documentando isso. Levantaram a estão cruzando a estrada, empurrando carrinho de mão, carregando mudas, sementes, água. Não vou conseguir acompanhar. Daqui pra frente, vamos usar a imaginação. 


Rubens Bedrikow

Piracicaba, Cachoeira Comprida, 29 de outubro de 2023.




terça-feira, 21 de março de 2023

Favela querida

 Jovem, morena, provavelmente com ascendência africana e indígena pernambucana, mas não certa disso, pois como muitas negras ou cafuzas, não tem acesso a documentos que esclareçam suas raízes mais profundas. O sorriso bonito e costumeiro esconde o fardo de ser mãe órfã, dedicada, sozinha, dependente de auxílio do Estado. O filho de doze anos frequenta a escola de sete e meia às quatro e meia. O menor precisa chegar na creche até às sete, mas fica lá somente durante a manhã. Impossível trabalhar de carteira assinada. Faz bicos. A desaparição da favela coincidia com a dispersão da vizinhança, das amigas e o sumiço das prosas, das festas, dos encontros, das confusões, das cervejas em roda. As crianças já sentiam falta dos amigos para jogar bola, brincar de pega-pega e esconde-esconde à noite, da turma da Unicamp para desenhar e brincar aos sábados. O desespero foi aumentando e não encontrava algum ombro amigo naquele semideserto urbano. Não hesitou ao afirmar que preferia a favela porque lá tinha certeza de conseguir criar os filhos. “No bairro novo, vai ficar mais cara a água, a luz, a construção da casa. Será que vou dar conta disso? Muitas famílias não vão voltar. Nunca mais será como antes”.

Barraco querido

 A favela desaparecendo aos poucos, para dar lugar, em breve, a um bairro novo, planejado, com casas de alvenaria, arruamento, água encanada, energia elétrica e esgotamento sanitário. A maioria dos barracos desabitados, parcialmente derrubados. Poucas famílias ainda estavam morando ali, mas por pouco tempo, pois o prazo para desocupar estava próximo. Quase uma favela fantasma. Avistei a jovem conversando com uma amiga ou parente, atenta a seu bebê no carrinho. Me contou que ia se mudar no dia seguinte, mas que voltaria para construir a casa de alvenaria. Motivo de alegria. Olhou para seu barraco, onde residiu por cerca de sete anos, desde o primeiro dia da ocupação e, com os olhos ligeiramente lacrimejados me disse: “moro ali. Meu barraco faz parte de minha história. Vou sentir falta dele”.

Saudoso barraco

 Sem escolha de não lembrar, peço licença de contar que estava ao meu lado aquele homem grande, negro, saudável, olhando aquele trator seu barraco derrubar. Ou melhor, o que restava dele, depois do incêndio que dois dias antes consumira seu lar e de centenas de vizinhos. De repente, ele disse: "aquela porta eu coloquei há uma semana". Não houve valentia capaz de deter as poucas, porém teimosas lágrimas que escorreram, acompanhando a porta que desabava. Eram poucas porque as restantes ficaram bloqueadas pra dentro, às custas de muita firmeza interior, que ele assim justificou: “não quero que minhas filhas me vejam chorar agora”. Tem lágrimas que escorrem pra dentro e não se tornam públicas. São só da pessoa. Mas doem também. Como não relembrar Adoniram, que ao lado de Mato Grosso e Joca foram pro meio da rua apreciar a demolição. Que tristeza que sentia. Cada táuba que caia, doía no coração. A maior parte do tempo, não conversamos, apenas olhamos pra frente. Olhares paralelos, mais adequados para apaziguar ou driblar a tristeza, o sofrimento que clamava por transbordamento. Mas nos comunicamos assim mesmo, o tempo todo. Saudoso barraco, barraco querido, onde ele passou dias felizes de sua vida. O incêndio mostrou-se implacável e não poupou as lembranças, a antiga fotografia dos pais, as bonecas da filhas, as roupas preferidas, as camas, a história. Eu ali, ao seu lado, numa experiência inédita, longe dos “muros" do campus, exercendo minha arte.

domingo, 31 de julho de 2022

Orelha nas costas (carta a Danuza Leão)

Prezada Sra. Danuza, 


Gostei muito do texto "Uma certa saudade" publicado na Folha de São Paulo do dia 10 de fevereiro último. Sou médico clínico geral e curioso da história da medicina e, talvez por isso, gostei do seu médico calmo, amigo da família, que perguntava sem pressa, que fazia um carinho. Nos tempos atuais, fica a impressão de que a grande maioria dos esculápios não sabe o que é atender sem pressa, não conhece a família do doente, e às vezes nem mesmo o próprio enfermo que chega a ser chamado de caso.

No entanto, o que mais despertou minha atenção foi o fato do seu médico encostar a cabeça nas costas para escutar seus pulmões e a perturbação que esse contato íntimo lhe provocava. Ao que tudo indica, foi essa perturbação que levou o renomado clínico e tisiologista francês René Théophile Hyacinthe Laënnec a inventar o estetoscópio em 1816. Laënnec seguia o costume da época e auscultava o tórax de seus doentes através da aplicação direta da orelha sobre o mesmo, até que, em 1816, consultado por uma jovem com sintomas de doença cardíaca, considerou-se impedido de realizar a auscultação direta devido à idade e sexo da paciente. Ocorreu-lhe, então, enrolar uma folha de papel de forma a produzir um cilindro e aplicar uma extremidade sobre a região precordial da enferma e a outra sobre sua própria orelha. Para surpresa sua, ouviu com inesperada clareza os batimentos cardíacos da jovem. O novo instrumento postou o competente médico, e aqueles que viriam depois, a pouco mais de trinta centímetros de seus doentes, distância sem dúvida mais respeitosa. 

Portanto, mais de um século depois da invenção do estetoscópio, ainda se praticava a auscultação direta no nosso país! Teria o invento custado a popularizar-se? Ou os médicos confiavam mais na ausculta direta? Ou temiam pelo fim da verdadeira relação médico-paciente? 

Outra interessante questão que surge à partir da leitura do seu texto é a aceitação que um médico teria, nos dias de hoje, se voltasse a encostar a cabeça nas costas de seus doentes. Atualmente, os médicos não são amigos da família nem do doente, as consultas quase sempre têm curta e insuficiente duração e costumam terminar com pedidos de exames caros, complexos e, às vezes desnecessários. Quem sabe se a pressa acabasse, se a conversa esticasse, se a orelha nas costas voltasse, os diagnósticos sairiam mais facilmente, mais elegantemente, os exames seriam menos frequentes, a medicina mais barata e acessível a uma maior parcela da população, a relação médico-paciente mais sólida e os erros médicos menos graves e mais raros ?

Essas memórias que a senhora escreveu num domingo de carnaval, imagino que acometida de certa nostalgia, quase depressão pelo fato de ligar a televisão e tentar enfrentar a transmissão dos desfiles ou o Big Brother, enriqueceram o domingo de alguns leitores. 

Um abraço,



Rubens Bedrikow


Campinas, 12 de novembro de 2004. 

Laënnec, o inventor do estetoscópio, e a saúde do trabalhador

A história da invenção do estetoscópio costuma agradar aos alunos que a escutam pela primeira vez. O médico francês René Thèophile Marie Hyacinthe Laënnec (1781-1826), renomado cirurgião e clínico, trabalhava, em 1816, no Hospital Necker, em Paris. Valendo-se de sua vocação musical como flautista e de sua observação de duas crianças que brincavam num parque transmitindo e ouvindo sons através de um peça de madeira, solucionou o problema de examinar mais detalhadamente uma jovem cardiopata, sem aplicar diretamente sua orelha sobre o tórax dela, procedimento corriqueiro na medicina daquela época. Enrolou folhas de papel de forma a obter um cilindro sólido, aplicou uma das extremidades sobre a região precordial da paciente e escutou os batimentos cardíacos pela outra. Surpreendeu-se com a clareza dos sons e vislumbrou as possibilidades do método para o estudo de doenças cardíacas e pulmonares. Iniciou, então, o desenvolvimento de um aparelho cilíndrico de madeira com dimensões mais adequadas à sua função de exame do tórax. Estava criada a ausculta mediata, publicada no livro “De l’auscultation médiate ou Traité du diagnostic des maladies des pulmons et du coeur, fondé principalement sur le nouveau moyen d’exploration". 

Essa história está presente em livros de história da medicina como “Medicine, an illustrated history”, de Albert S. Lyons e R. Joseph Petrucelli, ou “Medicine, a treasure of art and Literature”, entre outros. 

Recomento o texto do Prof. Arary da Cruz Tiriba, intitulado “Nos remerciements, Laennec!”, publicado no Suplemento Cultural da Revista da Associação Paulista de Medicina de outubro de 2013, no qual ele, próximo de completar 90 anos, relata a história da invenção do estetoscópio a alunos de medicina com “colar profissional pendurado ao pescoço”, durante visita em enfermaria de hospital universitário.

No livro “Les trois médecins”, de Martin Winckler, me deparei com outra informação curiosa relatada na obra de Laënnec1: a extremidade do cilindro destinada a ser aplicado no tórax do paciente deve ser ligeiramente côncava a fim de não deslizar e melhor captar os sons. Esta cavidade, que a pele preenche muito facilmente, nunca forma um vazio, mesmo nos pontos mais planos do tórax. Quando há emagrecimento excessivo, com perda de massa dos músculos peitorais, a ponto de deixar entre as costelas sulcos suficientemente profundos, pode ocorrer de a extremidade do cilindro não ser ocupada em toda sua superfície. Nestes casos, estas fendas devem ser preenchidas com um pedaço de pano ou algodão coberto com um pano ou uma folha de papel. A mesma precaução deve ser tomada para a exploração do coração, em indivíduos cujo esterno é deprimido para trás em sua parte inferior, como acontece freqüentemente em sapateiros e em alguns outros artesãos. Portanto, diante de sapateiros com o tórax do tipo infundibuliforme, isto é, com depressão do terço inferior do esterno até o apêndice xifoide, haveria um cuidado a mais na aplicação do estetoscópio cilíndrico. Esta recomendação de Laënnec indicaria que tal deformidade torácica estaria relacionada a algumas ocupações artesanais, em especial a de sapateiro, o que poderia interessar aos médicos do trabalho. 

Busquei no livro “As doenças dos trabalhadores”, escrito por Bernardino Ramazzini, em 1700, alguma informação sobre deformidade torácica em sapateiros. Nenhum dos capítulos foi dedicado a essa classe de trabalhadores. No capítulo “Doenças dos operários sedentários” há menção a sapateiros e alfaiates, os “artesãos de cadeira”, que “se tornam encurvados e corcundas”. “Mais que gibosos, de perfil parecem macacos; como nos macacos, suas vértebras dorsais igualmente se tornam salientes”. Sofrem de dores lombares. Contudo, não há nenhuma referência à deformidade do esterno.

No “Dicionário de Saúde e Segurança do trabalhador”, organizado por René Mendes, também não encontrei nenhum verbete relacionado a sapateiro ou a deformidade torácica relacionada ao trabalho.

A condição conhecida como “peito de sapateiro” ou “Pectus excavatum” ou “Pectus Carinatum” aparece em obras de ortopedia e são citadas como causas possíveis a hereditariedade, escoliose, cifose e desproporção entre o crescimento do esterno e dos arcos costais. 

A expressão “peito de sapateiro” e a menção aos sapateiros e outros artesãos como portadores de deformidade torácica caracterizada pelo afundamento do esterno na obra de Laënnec, poderia indicar duas condições próprias dessa ocupação no passado: um processo de trabalho no qual o sapateiro apoiasse vigorosamente um aparelho ou o próprio sapato contra seu esterno e, talvez, o trabalho infantil, isto é, o início da atividade antes do término do crescimento da caixa torácica, o que acarretaria a deformidade descrita, decorrente, portanto, da limitação do avanço anterior do esterno durante o crescimento da criança.

O esclarecimento da questão poderá vir de conversas com colegas da Saúde do Trabalhador e com sapateiros. 

Por enquanto, resta a contribuição provocativa do tisiologista Laënnec para a história da Saúde do Trabalhador. Seja pela menção especial aos sapateiros no momento de descrever o uso do estetoscópio cilíndrico seja porque ele faleceu de tuberculose aos 44 anos, muito provavelmente adquirida de um paciente que ele cuidou durante suas atividades profissionais.     


1. “L’extrémité du cylindre destinée à être appliquée sur la poitrine du malade, c’est-à-dire celle qui est formée par l’embout ou obturateur, doit être très légèrement concave; elle en est moins sujette à vaciller, et cette cavité, que la peau remplit très facilement, ne forme jamais de vide, même sur les points les plus plats de la poitrine. Lorsqu’un amaigrissement excessif a détruit les muscles pectoraux, au point de laisser entre les côtes des gouttières assez profondes pour que l’extrémité du cylindre ne puisse porter de toute sa surface, on remplit ces intervalles de charpie ou de coton recouvert d’un linge ou d’une feuille de papier. La même précaution doit être prise pour l’exploration du coeur, chez les sujets dont le sternum est enfoncé en arrière dans sa partie inférieure, comme il arrive fréquemment chez les cordonniers et chez quelques autres artisans."